quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O formidável ritual democrático

O formidável ritual democrático


                                                           
Quando Max Weber fala de poder, ele faz distinções importantes para a compreensão da democracia. Um regime político centrado numa premissa revolucionária, pois é o único que periodicamente confirma pessoas em seus cargos, o que produz uma instabilidade estrutural paradoxalmente regulada.

Tanto isso é verdade que quando se dá um golpe, fala-se em tudo, menos em eleição. Esse grande rito garantidor de mudanças por dentro, esse formidável teste que une pessoas comuns a altos cargos necessários à administração pública. Política e sociedade estão juntas nas democracias e divorciadas nas ditaduras.

Weber é claro quando distingue poder de dominação. Algo básico para entender o governo dos humanos pelos humanos — esses bichos cujo programa é não ter programa sendo, por isso mesmo, dependentes do que Weber chamou de legitimação. A dimensão que domestica o monopólio da força, justificando-a e racionalizando-a numa autoridade, o que evita o caos ou, como dizia um outro clássico, a “guerra de todos contra todos”.

A dominação comunica quem manda e quem obedece. A passagem da força bruta para a dominação mediada e racionalizada por um sistema religioso ou jurídico é o que chamamos de sistema cultural — uma ordem capaz de lidar com suas diferenças, tomando-as como “naturais”.

Se o rei é ungido por Deus e se não existe dúvida sobre a sua existência e de que as relações humanas são um produto de ancestrais míticos que as criaram e engendraram os “costumes” com os quais vivemos, então a obediência não é devida à pessoa, mas ao papel que as pessoas desempenham, os quais têm uma chancela como divina ou legal.


O poder tem sempre o seu lado arbitrário e opressivo, mas a dominação é fundada em normas e gestos originários de narrativas sagradas ou de códigos ancestrais ou de leis naturais, fundadores da ordem humana. É assim que ela escapa da história e passa a impressão de eternidade.

O poder depende da força. A dominação requer acordos. “Tomar o poder”, como querem os imbecis, é uma banalidade; atingir — entretanto — um sistema razoável de dominação requer senso de justiça entre o mandante e o obediente. Pois entre eles existem normas e rituais que legitimam suas diferenças e podem revertê-las.

Tudo isso nos leva além de Weber, para Arnold Van Gennep — o revelador da estrutura elementar dos rituais, essa base comportamental da legitimidade.

Ele diz:
1. Os estágios críticos do ciclo de vida que começa com o nascimento, passa pela puberdade, casamento, paternidade e, finalmente, chega ao fim com a morte; ainda que estejam relacionados a eventos fisiológicos, são definidos socialmente;
2. A entrada e a saída desses estágios críticos são sempre marcadas por rituais e cerimônias não apenas nas “sociedades primitivas”, mas também na civilização cristã e nas civilizações da antiguidade;
3. Esses “ritos de passagem” incluem sempre três fases: separação (que remove os sujeitos do seu campo social rotineiro), transição ou margem e, finalmente, incorporação num novo campo e papel social.

Nas democracias, essas passagens ocorrem de tempos em tempos naquilo que chamamos de eleição — esse grandioso processo cerimonial no qual legisladores e executivos são substituídos numa ampla competição determinada pelo “voto”. Por uma promessa representativa de lealdade e confiança.
Neste sentido, a eleição é um ritual cujo objetivo explicito é a renovação — essa marca registrada do viés democrático. Ela é também uma ocasião na qual a sociedade pode reclamar aquilo a que aspira e ver-se a si mesma como um feixe de opiniões divergentes. Pode também servir como correção para governantes que traíram a confiança dos seus eleitores.

Foi exatamente isso a que assistimos tranquilamente neste último domingo e que iremos assistir novamente no “segundo turno”, quando será finalizada a associação de um candidato (que passa) ao cargo de presidente da República (que permanece).

Temos hoje uma conjuntura eleitoral marcada por divergências somadas a ressentimentos que impedem de agir com a tal racionalidade que o campo do político dizia possuir na sua definição moderna. Que Deus, esse representante de tudo o que tentamos enxergar, nos ajude e nos livre da violência, da extorsão e da impostura em nome da democracia.

Fonte: “O Globo”, 10/10/2018

Política de pai para filho

Política de pai para filho

Alto grau de parentesco entre parlamentares dificulta a renovação e compromete pautas importantes para o país


                                                                  
Levantamento realizado pela revista Congresso em Foco, em 2017, mostrou que 62% dos deputados e 73% dos senadores brasileiros têm parentesco com outros políticos. Em 2014, um estudo da ONG Transparência Brasil apontou o Rio Grande do Norte como o estado com a maior incidência de laços familiares, 100% dos deputados federais eleitos tinham parentesco político. Nestas eleições, não poderia ser diferente. Os vínculos familiares se repetem afetando ainda mais o processo de renovação política: ao menos sete chapas para o Senado são formadas por, no mínimo, dois parentes.
 
 
Para o advogado e conselheiro do Imil Sebastião Ventura, o Brasil conta com autênticas dinastias políticas, impedindo que novas estruturas governamentais sejam implementadas. Os atuais partidos do país não oferecem preparação adequada para a vida pública, e enquanto houver a herança familiar for determinante nas eleições, dificilmente estaremos diante de uma reforma política, explica:
 
“Enquanto não tivermos partidos comprometidos com os ideais da democracia, em promover o Estado Brasileiro, garantir que o capitalismo nacional prospere e escolher pessoas habilitadas e comprometidas com a decência pública ao invés de passar os cargos de geração para geração, vamos continuar com essa política feita entre amigos, entre a corte de Brasília e os bobos que são o povo”.
 
 
Ouça a entrevista completa no player abaixo:

 
 
Outro impasse para a mudança no Congresso, aponta Ventura, é o modelo de financiamento de campanhas eleitorais, onde antigos nomes da política acabam sendo os beneficiários. “Esses recursos públicos deveriam ser divididos de forma paritária, mas não, os caciques se apropriam e denominam quem vai receber e quem não vai. No final do dia, são os velhos políticos, através de velhas estratégias que mantêm o domínio do Congresso Nacional, impedindo que novas visões venham iluminar a política nacional”.
 
 
A democracia vai muito além das eleições e a contribuição diária dos cidadãos é fundamental para a renovação política brasileira, observa o advogado, ressaltando a importância do comprometimento da sociedade civil e setores empresariais com os ideais da democracia:
 
“O povo não pode ser o soberano de um dia só, ir na eleição, votar e pensar que isso aí é democracia. Não! O voto é necessário, mas democracia é mais do que voto. É fundamental que a sociedade se organize cada vez mais, que as lideranças cívicas participem, tenham coragem de falar e não se calem mais para as mentiras do poder. A democracia é um regime que exige a voz das pessoas. Se a política não funciona, os cidadãos devem reagir e quando as ruas gritam, a política escuta”.
 

Quadro é favorável a Bolsonaro

Quadro é favorável a Bolsonaro





A vitória de Jair Bolsonaro com quase o dobro de votos de Fernando Haddad sinaliza que o candidato do PSL entrará no segundo turno em posição de vantagem, embora todos considerem essa uma nova eleição. Mas quando um candidato sai do primeiro turno em ascensão, o clima que se cria em torno dele é favorável a novas adesões, e as negociações beneficiam o vencedor.



Por isso, nunca um candidato que entrou no segundo turno na dianteira da disputa presidencial deixou de se eleger. Foi assim com o expresidente Lula, que não ganhou eleições no primeiro turno – em 2006 chegou a ter 49% —, mas sempre saiu vencedor com cerca de 60% dos votos no segundo turno, contra candidatos do PSDB.




Desta vez, o candidato petista Fernando Haddad terá que reverter bem mais votos do que os adversários do PT nas vezes anteriores, uma tarefa mais difícil do que a do tucano Aécio Neves em 2014, por exemplo, que terminou o primeiro turno com 33,55%, contra 41,59% de Dilma, e conseguiu no segundo turno 48,36%, contra 51,64%, perdendo por pouco. Haddad, hoje, termina com menos votos do que Aécio teve no primeiro turno em 2014, e Bolsonaro quase venceu agora.




A união dos opostos será feita neste segundo turno à força, pois no primeiro as legendas de esquerda e de centro se dispersaram entre várias candidaturas. A questão é saber quão unidos estarão neste segundo turno, e quem terá mais condições de atrair votos do centro político.




Haddad, pelas pesquisas, é capaz de levar a maioria dos votos de Ciro, Marina e Alckmin, mas não o bastante para se contrapor a Bolsonaro, que atrairá, até mesmo por falta de opções, o eleitorado de centro-direita espalhado entre candidaturas nanicas de Alvaro Dias, Meirelles, Amoedo, além da parte minoritária de Alckmin e Ciro.


A impossibilidade de escolha, no entanto, pode gerar um índice maior de votos brancos, nulos e da abstenção neste segundo turno, o que facilitará a vida dos candidatos, especialmente do que está na frente, pois precisarão de menos votos válidos para se eleger.


Fonte: “O Globo”, 08/10/2018



Revendo rumos

Revendo rumos



                                                                        
A recomposição dos projetos dos candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, provocada por uma entrevista do Jornal Nacional de segunda-feira, além da boa notícia de que os dois abandonaram publicamente projetos de cunho autoritário, reafirma o peso da opinião pública numa sociedade democrática.
A procura pelos dois candidatos de um eleitor que, no primeiro turno, recusou os extremos que representam, tem mais que o objetivo de obter novos votos. Mostra que entenderam que, mesmo em situações de conflito exacerbado, a sociedade busca caminhos democráticos para resolver suas questões.
Resta saber se os dois candidatos seguirão nesse caminho, não deixando dúvidas sobre seus compromissos com a democracia e a Constituição de 1988. O candidato petista havia anunciado, feito o acordo eleitoral com o PC do B, que o PT incluiu em seu programa de governo a convocação de uma Assembléia Constituinte exclusiva.
Quando aconteceram as manifestações de rua de 2013, acuada pelo vigor dos protestos, a então presidente Dilma foi à televisão anunciar, entre outras medidas que nunca saíram do discurso, como um pacto nacional pela responsabilidade fiscal, a convocação de um plebiscito para a realização de uma reforma política através de uma Constituinte exclusiva.
 
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Não colocou em prática, por impossibilidade legal no caso da Constituinte, nenhum dos pactos, e acabou impedida de continuar na presidência justamente pela irresponsabilidade fiscal que patrocinou. A convocação de uma Constituinte foi o primeiro passo do então recém-eleito Hugo Chavez, na Venezuela, para avançar sobre os demais poderes, ampliando a força do Executivo.
A “Constituição da República Bolivariana da Venezuela”, promulgada em 1999, primeiro dos 14 anos de governo de Chavez, é considerada o ponto de partida do chavismo.
Também o entorno do presidenciável Jair Bolsonaro andou fazendo propostas que não se coadunam com um ambiente democrático. O vice, General Mourão, sugeriu que uma nova Constituição poderia ser feita por um grupo de notáveis, sem precisar do voto popular, bastando ser referendada numa eleição posterior.
Não existe tal possibilidade, e o mais parecido com isso foi a Comissão Arinos, formada por notáveis que propuseram ao Congresso um novo texto, como base para a nova Constituição a ser promulgada em 1988. Mesmo composta de “notáveis” e tendo suas vantagens, as propostas da Comissão foram solenemente ignoradas pelo presidente da Constituinte Ulysses Guimarães.
Também a referência à possibilidade de um autogolpe foi rejeitada por Bolsonaro, assim como Haddad rejeitou a afirmação do ex-ministro José Dirceu de que, vencida a eleição, o PT “tomaria o poder”. Mourão e Dirceu falavam da mesma coisa, de extremos opostos.
Os dois candidatos se curvaram à ordem constitucional e prometeram, diante da audiência do Jornal Nacional, a obedecerem a Constituição, que não permite que se use a democracia para atentar contra ela. A questão é saber o alcance e a seriedade desses compromissos.
O ex-presidente Lula fez a Carta aos Brasileiros em 2002 para garantir que manteria a política econômica então em vigor, e respeitaria o equilíbrio fiscal. Cumpriu a promessa durante seu primeiro mandato, mas, quando se sentiu forte, deu início à guinada em direção à “nova matriz econômica” de Guido Mantega que, aprofundada por Dilma, deu nessa enorme recessão de que ainda não nos livramos, com um déficit fiscal gigantesco.
O programa do PT é a continuidade da política econômica que nos levou onde estamos, e mais a reafirmação de controles sociais de diversos setores, até mesmo do Judiciário, passando pelos meios de comunicação, que sempre tentaram e não conseguiram, pela reação contrária da opinião pública.
Será preciso que Haddad, se não pode fazer a autocrítica necessária ao PT, abra mão desse dirigismo do Estado para que seu compromisso com a democracia possa ser levado a sério.
Também Jair Bolsonaro tem que desestimular seus seguidores, se não tem controle sobre eles como diz, a usar a violência para atingir seus objetivos de maior segurança pública e preservação dos valores conservadores. Esses objetivos não podem prescindir da proteção aos direitos humanos, e a maioria não pode submeter as minorias a suas convicções.
Fonte: “O Globo”, 10/10/2018

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Globo – No Peru, eleitor pune partidos acusados de corrupção

 
JANAÍNA FIGUEIREDO Correspondente janaina.figueiredo@oglobo.com.br BUENOS AIRES
 
Partidos tradicionais que têm políticos investigados pela “Lava-Jato” peruana foram os grandes perdedores nas eleições regionais no país.
 
Os peruanos foram às urnas no último domingo para eleger governadores e prefeitos dos 25 departamentos (estados) do país, e o resultado do pleito foi um claríssimo voto de castigo aos partidos nacionais e até pouco tempo mais fortes no cenário local, todos envolvidos na chamada “Lava-Jato peruana”, entre eles o fujimorista Força Popular. Ao mesmo tempo, consolidou-se a tendência que começou a surgir em 2010 de crescimento e triunfo de partidos e movimentos locais e regionais que, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, passarão a comandar entre 75% e 80% dos governos estaduais e municipais do país.
 
As investigações da “LavaJato peruana” tiveram um efeito devastador para os partidos que, nos últimos anos, lideraram a política local. Dois deles, o Partido Nacionalista, do ex-presidente Ollanta Humala (2006-2011), e Peru Possível, do também ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), sequer apresentaram candidatos nas eleições regionais e correm sério risco de perder seus registros.
 
Já o Apra, do ex-presidente Alan García (1985-1990 e 2006-2011), não elegeu governadores e até ontem tinha poucas esperanças de ficar com alguma prefeitura relevante. O Peruanos pela Mudança, do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski (destituído em março por denúncias de corrupção no caso Odebrecht), disputou a prefeitura de Lima e seu candidato obteve 0,4% dos votos.
 
SEM DIREITO À REELEIÇÃO
 
Tanto Humala como Toledo, García e Kuczynski estão sendo investigados pelos tribunais locais por denúncias de suposta corrupção. Toledo está fora do país, portanto, em categoria de foragido. Humala e sua mulher, Nadine Here dia, passaram oito meses sob regime de prisão preventiva e atualmente estão em liberdade, mas com restrições, por exemplo, para sair do país. Já García está em liberdade, mas como todos os demais ex-presidentes enfrenta acusações de corrupção, na maioria dos casos, relacionada a financiamento ilegal de campanhas eleitorais com dinheiro da Odebrecht.
 
A mesma suspeita existe em relação à ex-candidata presidencial Keiko Fujimori, que quase derrotou Kuczynski em 2016 e foi a artífice dos dois processos de impeachment contra o então presidente. Nos últimos meses, Keiko despencou nas pesquisas, viu seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), ter seu indulto humanitário anulado pela Corte Suprema e retornar à prisão. Apesar de ainda ter a maior bancada no Congresso, o fujimorismo, apontaram analistas, está dividido enas releições regionais sofreu um ade suas maiores derrotas. O partido perdeu seus três governos estaduais e está vendo seu capital político, até há pouco tempo suficiente para derrubar um chefe de Estado, esvair-se.
 
—O fujimorismo vive tempos complicado secada vez são menores suas chances para as presidenciais de 2012 — apontou Eduardo Dargent, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Católica do Peru.
 
Para ele, “esta eleição mostrou o grau de desprestígio da classe política tradicional peruana, decorrente, essencialmente, dos escândalos de corrupção”.
 
Pela primeira vez, foram proibidas reeleições, com od itau malei aprovada pelo Congresso.Dargentdes tacou que a novidade ampliou espaços para novos nomes na política, mas ele esclareceu que, em geral, os partidos e movimentos regionais “ainda são frágeis e, muitas vezes, efêmeros”.
 
O voto-castigo poupou partidos como o tradicional Ação Popular (AP), com mais de 30 anos de História, mas no qual não respingou a Lava-Jato local. O novo prefeito de Lima, Jorge Muñoz, uniu-se recentemente ao AC e fez uma campanha meteórica que o consagrou como novo prefeito, depois de uma gestão muito elogiada no município de Mira flores, na capital.
 
— A credibilidade dos partidos que até pouco tempo dominavam apolítica peruana foi dinamitada pela Lava Jato. Os eleitores expressaram seu repúdio à corrupção — analisou Luis Benavente, diretor da Vox Populi.
 
CRUZADA POR REFORMAS
 
Segundo ele, “o fujimorismo foi um dos grandes perdedores das regionais”.
 
— O candidato do Força Popular em Lima fez a pior eleição da História do partido —enfatizou o analista.
 
Em cruzada por aprovar reformas constitucionais com grandes mudanças no mundo legislativo e judicial, o presidente Martín Vizcarra (formalmente, do partido de Kuczynski, mas de saída), celebrou os resultados:
 
— O Peru vive uma etapa de reafirmação de seus valores democráticos. O povo está decidindo o futuro, com entusiasmo e convicção.
 
Entusiasmo, de fato, houve. De acordo com o Escritório Nacional de Processos eleitorais, cerca de 80,63% dos peruanos participaram da eleição.
 

O Estado de S. Paulo – Inflação chegará a 10.000.000% em 2019 na Venezuela

 
 
 
 
 
O FMI afirma que o índice deve chegar a 1.350.000% este ano, enquanto a Assembleia Nacional estima que atingirá 4.300.000%
 
MIGUEL GUTIÉRREZ/EFE
 
Tragédia. Amigos e parentes de Fernando Albán lamentam morte do opositor, que teria se jogado de prédio do serviço de inteligência, em Caracas
 
O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou ontem que a inflação na Venezuela deve chegar a 10.000.000% em 2019. Para este ano, o órgão prevê que o índice atingirá 1.350.000%. Por sua vez, a Assembleia Nacional (AN) da Venezuela, controlada pela oposição, informou ontem que a inflação de 2018 no país encerrará o ano em quase 4.300.000%, um dado que supera as previsões mais pessimistas até agora.
 
De acordo com o relatório que o FMI divulgou ontem à noite, Perspectivas da economia mundial, “estima-se que a hiperinflação piore rapidamente na Venezuela, impulsionada pelo financiamento monetário de um déficit de grande escala e a perda da confiança na moeda”.
 
O deputado e economista Ángel Alvarado afirmou que a AN prevê que a inflação alcance os
 
4.292.102% no fim de dezembro. Ele também afirmou que apenas em setembro o indicador chegou a 233,3%, o que seria a cifra mais alta já registrada na Venezuela em um único mês em toda a história do país.
 
A alta diária dos preços em setembro ficou um pouco acima de 4%, número similar ao observado no mês de agosto. A comparação anualizada – de setembro de 2017 a setembro de 2018 –, indica uma inflação de 488.865% e o acumulado neste ano chegou a 115.824%.
 
Segundo Alvarado, os dados são “horríveis”. Em entrevista ontem na capital venezuelana, o deputado opositor Juan Andrés Mejía afirmou que a inflação no país “tende a aumentar ainda mais”. Ele recomendou que seus compatriotas comprem “algum ativo” com o dinheiro que tenham guardado nos bancos.
 
“Não deixem seu dinheiro no banco para que ele não perca seu valor”, afirmou Mejía. Para o parlamentar, o aumento da base monetária – o volume de dinheiro criado pelo Banco Central da Venezuela (BCV) – em 173,4% no último um mês, assim como as recentes decisões do governo de Nicolás Maduro no âmbito econômico, são os principais motivos para o alto índice de inflação. “A situação não vai mudar se não houver uma alteração do modelo, se não houver uma mudança de quem dirige a economia”, completou Mejía.
 
Contenção. A Assembleia Nacional informa as cifras da inflação no país desde janeiro de 2017, já que o BCV deixou de publicar o índice há mais de dois anos. Em setembro, o Parlamento avaliou que o pacote econômico implementado por Maduro “fez disparar a hiperinflação”.
 
A Venezuela, país com as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, sofre com uma severa crise econômica e de desabastecimento, que fez centenas de milhares de pessoas fugirem, principalmente para países vizinhos como Colômbia, Brasil, Chile, Equador e Peru.
 
Recentemente, o presidente chavista lançou um pacote de medidas para tentar tirar o país do caos, mas analistas e opositores dizem que as medidas adotadas por Maduro, que incluem o congelamento dos preços de itens da cesta básica e uma reforma fiscal, não atacam a raiz dos problemas da economia venezuelana.
 
“Estima-se que a hiperinflação piore, impulsionada pelo financiamento monetário de déficit de grande escala”
 
Fundo Monetário Internacional
 
 
Oposição acusa governo pela morte de vereador investigado por ligação com o atentado a Maduro. Na versão oficial, ele se atirou do prédio onde era interrogado. PÁGINA 24
 
O procurador-geral da Venezuela, Tarek Saab, informou ontem que um vereador da oposição venezuelana preso na última sexta-feira morreu, segundo ele após se jogar do 10º andar de uma das sedes do Serviço Bolivariano de Inteligência(Seb in) em Caracas. Líderes oposicionistas acusam o governo pela morte.
 
O vereador Fernando Albán havia sido acusado de ligação coma explosão dedoisd rones durante um ato militar coma presença do presidente Nicolás Maduro, em 4 de agosto. Saab afirmou que o vereador pediu permissão para ir ao banheiro e se jogou pela janela. Segundo ele, os fatos estão sendo investigados pelo Ministério Público.
 
O ministro do Interior, Néstor Reverol, relatou no Twitter que o detido estava na “sala de espera da Sebin quando se jogou por uma janela das instalações e caiu no vazio, o que causou a sua morte”. Albán estava sendo investigado por“atos desestabilizadores comandados do exterior”, acrescentou.
 
Os líderes do partido Primeiro Justiça, ao qual Albán pertencia, responsabilizaram o governo pela morte e afirmaram que o vereador estava sendo pressionado a assumir envolvimento no atentado contra Maduro. “Ontem falei com sua mulher e ela medisse que ele estava sólido, forte, e que estava sendo pressionado ase incriminar, e hoje vemos o resultado”, disse ao site Efecto Cucuyo Julio Borges, líder do Primeiro Justiça, que está exilado na Colômbia. Segundo ele, Albán foi assassinado e seu corpo, jogado do prédio.
 
Para os dirigentes do partido opositor, a verdadeira causa da prisão de Albán foram as denúncias de violações de direitos humanos que ele fez contra o governo em reuniões na sede da ONU, em Nova York. Antes de anunciar sua morte, as autoridades não haviam dado explicações para a detenção do vereador.
 
“Exigimos a verdade e declaramos que esta dolorosa situação demonstra o pior da ditadura: um sistema de morte que penetra na consciência de quem defende a liberdade na Venezuela”, disse um comunicado do Primeiro Justiça.
 
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, condenou o governo pela morte do vereador .“Responsabilidade direta de um regime que tortura e assassina. Esta ditadura criminosa deve ir embora agora da Venezuela”, disse no Twitter.
 
O advogado do vereador, Joel García, disse aos repórteres que, no domingo, quando viu Albán numa audiência judicial, “ele não tinha sido agredido fisicamente, estava bem”. García acrescentou que o cliente lhe disse que “não havia sido submetido a tortura, apenas a muito interrogatório”.
 
— Ele não tinha um arranhão —afirmou.
 
Pelo menos 30 pessoas estão sendo investigadas pela explosão dos drones, entre elas o deputado da oposição Juan Requesens, também do Primeiro Justiça e preso há mais de um mês. Sua família denunciou que ele é mantido incomunicável.
 
BODE EXPIATÓRIO
 
Críticos de Maduro dizem que o presidente está usando o atentado com drones para sufocar oponentes e consolidar seu poder, num momento em que a Venezuela enfrenta hiperinflação e recessão econômica,oque provocou um agrave crise migratória.
 
Um grupo de deputados do grupo político de Albán foi até a sede da Sebin atrás de explicações.
 
— O governo sequestrou o vereador vivo, e ele morreu em suas mãos —disse o deputado opositor Ángel Alvarado.
 
 
JANAÍNA FIGUEIREDO Correspondente janaina.figueiredo@oglobo.com.br BUENOS AIRES
 
Partidos tradicionais que têm políticos investigados pela “Lava-Jato” peruana foram os grandes perdedores nas eleições regionais no país.
 
Os peruanos foram às urnas no último domingo para eleger governadores e prefeitos dos 25 departamentos (estados) do país, e o resultado do pleito foi um claríssimo voto de castigo aos partidos nacionais e até pouco tempo mais fortes no cenário local, todos envolvidos na chamada “Lava-Jato peruana”, entre eles o fujimorista Força Popular. Ao mesmo tempo, consolidou-se a tendência que começou a surgir em 2010 de crescimento e triunfo de partidos e movimentos locais e regionais que, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, passarão a comandar entre 75% e 80% dos governos estaduais e municipais do país.
 
As investigações da “LavaJato peruana” tiveram um efeito devastador para os partidos que, nos últimos anos, lideraram a política local. Dois deles, o Partido Nacionalista, do ex-presidente Ollanta Humala (2006-2011), e Peru Possível, do também ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), sequer apresentaram candidatos nas eleições regionais e correm sério risco de perder seus registros.
 
Já o Apra, do ex-presidente Alan García (1985-1990 e 2006-2011), não elegeu governadores e até ontem tinha poucas esperanças de ficar com alguma prefeitura relevante. O Peruanos pela Mudança, do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski (destituído em março por denúncias de corrupção no caso Odebrecht), disputou a prefeitura de Lima e seu candidato obteve 0,4% dos votos.
 
SEM DIREITO À REELEIÇÃO
 
Tanto Humala como Toledo, García e Kuczynski estão sendo investigados pelos tribunais locais por denúncias de suposta corrupção. Toledo está fora do país, portanto, em categoria de foragido. Humala e sua mulher, Nadine Here dia, passaram oito meses sob regime de prisão preventiva e atualmente estão em liberdade, mas com restrições, por exemplo, para sair do país. Já García está em liberdade, mas como todos os demais ex-presidentes enfrenta acusações de corrupção, na maioria dos casos, relacionada a financiamento ilegal de campanhas eleitorais com dinheiro da Odebrecht.
 
A mesma suspeita existe em relação à ex-candidata presidencial Keiko Fujimori, que quase derrotou Kuczynski em 2016 e foi a artífice dos dois processos de impeachment contra o então presidente. Nos últimos meses, Keiko despencou nas pesquisas, viu seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), ter seu indulto humanitário anulado pela Corte Suprema e retornar à prisão. Apesar de ainda ter a maior bancada no Congresso, o fujimorismo, apontaram analistas, está dividido enas releições regionais sofreu um ade suas maiores derrotas. O partido perdeu seus três governos estaduais e está vendo seu capital político, até há pouco tempo suficiente para derrubar um chefe de Estado, esvair-se.
 
—O fujimorismo vive tempos complicado secada vez são menores suas chances para as presidenciais de 2012 — apontou Eduardo Dargent, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Católica do Peru.
 
Para ele, “esta eleição mostrou o grau de desprestígio da classe política tradicional peruana, decorrente, essencialmente, dos escândalos de corrupção”.
 
Pela primeira vez, foram proibidas reeleições, com od itau malei aprovada pelo Congresso.Dargentdes tacou que a novidade ampliou espaços para novos nomes na política, mas ele esclareceu que, em geral, os partidos e movimentos regionais “ainda são frágeis e, muitas vezes, efêmeros”.
 
O voto-castigo poupou partidos como o tradicional Ação Popular (AP), com mais de 30 anos de História, mas no qual não respingou a Lava-Jato local. O novo prefeito de Lima, Jorge Muñoz, uniu-se recentemente ao AC e fez uma campanha meteórica que o consagrou como novo prefeito, depois de uma gestão muito elogiada no município de Mira flores, na capital.
 
— A credibilidade dos partidos que até pouco tempo dominavam apolítica peruana foi dinamitada pela Lava Jato. Os eleitores expressaram seu repúdio à corrupção — analisou Luis Benavente, diretor da Vox Populi.
 
CRUZADA POR REFORMAS
 
Segundo ele, “o fujimorismo foi um dos grandes perdedores das regionais”.
 
— O candidato do Força Popular em Lima fez a pior eleição da História do partido —enfatizou o analista.
 
Em cruzada por aprovar reformas constitucionais com grandes mudanças no mundo legislativo e judicial, o presidente Martín Vizcarra (formalmente, do partido de Kuczynski, mas de saída), celebrou os resultados:
 
— O Peru vive uma etapa de reafirmação de seus valores democráticos. O povo está decidindo o futuro, com entusiasmo e convicção.
 
Entusiasmo, de fato, houve. De acordo com o Escritório Nacional de Processos eleitorais, cerca de 80,63% dos peruanos participaram da eleição.