quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Aborto é assassinato


Este texto foi publicado também no blog Mundo Analista. Para ler por lá, clique aqui. 
aborto
Não, a discussão sobre o aborto não é uma questão de saúde pública, ou econômica, ou de escolha individual. A discussão sobre o aborto é uma questão de moral. E a pergunta que deve iniciar e orientar a questão, a única pergunta realmente importante, é a seguinte: o ser que há no útero da mulher grávida é uma vida humana ou não?



Ora, quer olhemos pelo viés científico, quer pelo viés lógico, não há qualquer razão plausível para considerar que o ser intrauterino não seja uma vida humana. Não, ele não é uma célula da mãe ou uma célula do pai. No momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo, temos ali a união de duas células, formando algo novo: um zigoto, que se desenvolverá naturalmente. É um novo ser em formação e não mera parte do pai ou mera parte da mãe.



Não, não se trata de uma potencial vida, mas de uma vida já em formação. Sim, trata-se de um organismo, por mais que ainda dependa de sua hospedeira, a mãe. É um ser humano, claro! Não poderia ser um elefante. Pode não ter autoconsciência, mas quem disse que a humanidade se define pela autoconsciência? Alguém que entra em coma, ou que perde totalmente a memória, continua sendo humano.


Um bebê recém-nascido, por mais que não tenha autoconsciência formada é um ser humano.
Alguns procuram, arbitrariamente, definir fases da gravidez para dizer: “A partir daqui é uma vida humana. Antes, não”. Que base possui esse tipo de pensamento? O simples fato de que um embrião ou um feto não é um bebê desenvolvido? Isso não faz sentido!



Um bebê não é uma criança desenvolvida. Uma criança não é um adulto desenvolvido. Eu deveria dizer que uma criança não é humana porque ainda não é um adulto desenvolvido? Faria sentido dizer que uma menina de oito anos não é humana porque não possui os seios de uma mulher adulta?



É ridículo tal argumento. Estabelecer fases para a gravidez para definir o que é vida é absolutamente arbitrário. Não possui base científica. A vida intrauterina é vida e é vida humana, não importa a fase da gravidez. As etapas do desenvolvimento dessa vida não a fazem mais ou menos humana. São apenas fases.



É interessante refletir sobre essas fases. Desde o início da concepção, o pequeno e rústico organismo novo passa a trabalhar diariamente em seu próprio desenvolvimento. É um trabalho incessante e progressivo. Há mover e crescimento ali. Com 18 dias de vida, o coração do embrião já começa a se formar. Com 21 dias já está batendo. Ou seja, antes de completar o primeiro mês de gestação, já há um coração batendo no útero! Como dizer que não há vida ali?



Além disso, com 30 dias o bebê já possui um cérebro. E com 40 dias já é possível medir ondas cerebrais nele. Com oito semanas, pés e mãos estão quase prontos. E com nove semanas o bebê consegue até chupar o dedo. Todos os órgãos já estão presentes e os sistemas muscular e circular estão completos. Isso tudo em dois meses de gestação! Com dez semanas, isto é, dois meses e meio, o bebê já tem impressões digitais.



 Como não há vida? Que base há para essa inferência? Nenhuma.



Para quem é cristão, ou judeu (e aqui termina nossa reflexão), ainda há uma razão teológica para se crer que há uma vida humana no interior do útero de uma grávida: a Bíblia Judaica, que também é o Antigo Testamento da Bíblia Cristã, entende que a vida começa na concepção. Sim, no momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo e forma o zigoto.



Diz um Salmo famoso:
“Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, pois fui formado de modo tão admirável e maravilhoso! Tuas obras são maravilhosas, tenho plena certeza disso! Meus ossos não te estavam ocultos, quando em segredo fui formado e tecido com esmero nas profundezas da terra. Teus olhos viram a minha substância ainda sem forma, e no teu livro os dias foram escritos, sim, todos os dias que me foram ordenados, quando nem um deles ainda havia” (Salmo 139:13-16).



No livro de Jeremias, o próprio Deus diz ao profeta: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e te designei como profeta às nações” (Jeremias 1:4-5).
Além dessas passagens, há na Bíblia cerca de quarenta menções à vida intrauterina.



Vida! Vida humana! É isso o que existe no interior do útero de uma mulher grávida. Quer olhemos para o aspecto lógico, quer para o científico, quer para o teológico (para quem é religioso), a resposta é uma só: o nascituro é uma vida humana. Portanto, aborto é assassinato.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A punição do cidadão honesto






Texto publicado também no blog “Mundo Analista“. Clique aqui.




Tenho uma tia que trabalha em uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Ela é professora e dá aulas em um colégio estadual. De quinze em quinze dias, quando ela retorna de lá para passar um final de semana na capital (onde ela, de fato, reside), conta-nos os problemas que tem passado por lá.



A pequena cidade tem sido infestada de marginais fugidos de morros da capital, por conta da instalação das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora).



A maioria deles é constituída por menores de idade, que variam de 14 a 17 anos. Eles não podem ser presos e são obrigados a estudar pela juíza da cidade. Não existe qualquer limite que possa ser imposto às suas atitudes. Se um deles rouba alguém, não ficará preso. Apenas será obrigado a voltar à escola.



Se tais marginais realmente quisessem estudar e lagar a vida de marginalidade, tudo estaria bem. Mas minha tia conta que os diversos alunos marginais que freqüentam o colégio não desejam nem estudar, nem largar a vida criminosa. A maioria desrespeita os professores em sala de aula, fazendo ameaças e se recusando a estudar. Afirmam com imponência que são bandidos, que os professores não devem mexer com eles e que, por serem menores, estão protegidos pela lei.



Entre as turmas de minha tia há uma única exceção à regra: um rapaz que se envolveu no tráfico quando ainda menor de idade, cresceu e foi preso por matar uma pessoa. Ele hoje está solto porque sua mãe vendeu a casa própria para pagar um bom advogado e absolvê-lo. Este rapaz trata minha tia de maneira respeitosa. Mas odeia estudar. Costuma a dizer que a vida de traficante é muito mais fácil. Em suas palavras: “Quando eu traficava, eu tinha dinheiro para manter dez mulheres. Em um dia de ‘trabalho’ eu podia conseguir até R$ 500,00. Hoje eu ralo o dia inteiro carregando saco de cimento e ganho uma merreca. A tentação de voltar pro tráfico é grande”. Ele também afirma que “essa vida de estudo é muito difícil”.



Certa feita um desses menores saiu algemado do colégio por um guarda, por estar desrespeitando professores e o próprio guarda. Ele foi aplaudido e ovacionado por vários colegas e gritava sorrindo: “Fiquem tranqüilos. Semana que vem eu tô de volta!”. Ele realmente voltou e continua dando problemas. Nesta semana minha tia passou por um problema mais sério. Foi ameaçada e agredida por outro desses alunos. Teve que dar parte à polícia. Mas ela sabe que não vai dar em nada. A polícia nada pode fazer por ela.


O quadro se torna mais feio quando pensamos que não precisava ser assim. A idéia de que o menor de idade não pode ser preso se baseia em dois raciocínios falsos. O primeiro pode ser descrito assim:

(1) O menor de idade se torna marginal por causa das mazelas sociais;

(2) Se ele se torna marginal por causa das mazelas sociais, a culpa não é dele;

(3) Logo, ele não pode ser punido.


A primeira premissa é questionável por vários motivos. Em primeiro lugar, tira do indivíduo a capacidade de escolha. Ele sempre será produto de influências externas. Se assumimos isso como verdade, devemos concluir que toda pessoa pobre que nasce em um lugar problemático e passa por dificuldades se tornará um criminoso. É evidente que isso não é verdade.



Além do mais, se assumimos tal premissa como verdade, torna-se difícil fazer o julgamento de qualquer crime cometido em nosso mundo. Até que ponto um estuprador realmente escolheu ser assim? Será que não existiram influências externas em sua vida que o fizeram tornar-se um estuprador? E um deputado que desvia recursos de um hospital? Até que ponto ele escolheu ser assim? Será que ele não é uma vítima de fatores externos, de pressões sociais? Será que quando criança ou jovem ele não recebeu poderosas influencias que fizeram dele um corrupto?



Como podemos ver, assumir tal premissa torna qualquer erro ou crime desculpável, por ter sido causado por fatores externos independentes da escolha individual. Um sistema jurídico que acate este tipo de raciocínio, destrói a responsabilidade pessoal e arruína o valor dos julgamentos.



É possível, evidentemente, sustentar a primeira premissa de um modo mais ameno, apenas ressaltando que as mazelas sociais são uma influência negativa muito forte para o menor. Ainda assim, o argumento não se sustenta, pois a segunda premissa afirma que o menor não tem culpa do que faz.



Se suavizarmos a segunda premissa, dizendo algo como: “O jovem não tem toda a culpa”, o argumento também não se sustenta. Afinal, mesmo que o jovem não carregue toda a culpa de sua escolha (o que é questionável), isso não faz do cidadão honesto o culpado. No entanto, quando o menor de idade não é preso, por estar solto, agride um cidadão honesto, vemos claramente o cidadão honesto recebendo punição sem ter cometido crime. E por que deveria um cidadão honesto ser punido em lugar do marginal que cometeu o crime? Não é injusto tal raciocínio? Acaso há lógica nisso?



Com as duas premissas derrubadas, a conclusão, obviamente, se mostra falsa. Não há motivo para não se prender um menor que cometeu um crime.


O segundo principal raciocínio utilizado por quem se opõe a prisão de menores de idade pode ser descrito assim:


(1) O criminoso precisa ser reeducado na cadeia, pois essa é a função da cadeia;
(2) A reeducação do menor de idade é ainda mais prioritária, pois o mesmo está em desenvolvimento;
(3) Nossas prisões não reeducam os criminosos;
(4) Se não reeducam os criminosos, muito menos reeducarão os menores;
(5) Logo, menores não podem ser colocados na prisão em hipótese nenhuma.



As premissas-chave desse argumento são as duas primeiras. Perceba que nelas existe uma definição da função primária de uma cadeia: reeducar o criminoso. O problema é que essa definição está errada. A função primária da cadeia não é reeducar o criminoso, mas sim livrar a sociedade de um perigo. Pensar que a reeducação do criminoso deve ser a principal função da cadeia é priorizar o criminoso em detrimento da vítima. É mais ou menos como um homem estuprar sua filha e você se preocupar primeiro com o criminoso: “Poxa vida, temos que reeducar esse cara, coitado dele… Vamos lá. Vamos ajudá-lo. Não o prendam. Ah, é! Quase me esqueci. Minha filha está sofrendo porque foi estuprada por ele…”.



O leitor compreende? É uma questão de prioridade. A reeducação do criminoso só pode ser o foco quando o mesmo já foi devidamente preso e não oferece mais risco para a sociedade. Se essa prioridade é invertida, criamos uma cultura de exaltação do criminoso (como tem ocorrido na cidade em que minha tia trabalha).



Assim, quando digo que sou a favor da redução da maioridade penal, não estou dizendo que isso vai reeducar os criminosos. A idéia não é essa. O objetivo primário é impossibilitar, pelo menos por alguns anos, que aquele jovem que estuprou, torturou e matou pessoas, continue estuprando, torturando e matando pessoas. O foco é a proteção às vítimas.



Uma vez derrubada a definição de que a função primária da cadeia é reeducar o criminoso, todo o argumento cai. Já não há motivo para se manter o menor livre, pois a prioridade é proteger os cidadãos honestos. Então, como podemos ver, temos sofrido à toa.



Alguém pode objetar que não estou dando a devida importância à reeducação dos criminosos presos. Mas isso não é verdade. Embora eu tenha a plena convicção de que essa não é a função primária da cadeia, mas sim a proteção do cidadão honesto, uma vez tendo tirado o criminoso da sociedade, o objetivo primário foi alcançado. Assim, o foco passa a ser justamente buscar a reeducação do criminoso.



Então, sim, é preciso rever essa questão das condições precárias das cadeias e criar iniciativas para melhorar a qualidade delas, a fim de que os presos tenham possibilidade de se regenerarem a aprenderem algo de bom.


Não é o assunto desse texto, mas uma proposta que acredito ser viável é a terceirização de presídios.


 Não, isso não faz com que empresários cheios de gana por lucros tenham interesse no aumento da criminalidade. A terceirização de presídios, se bem implementada, daria ao empresário que já tem uma fábrica com filiais, a chance de administrar um presídio onde os presos seriam funcionários normais (como em qualquer fábrica), recebendo salário e todos os direitos trabalhistas.



Se a criminalidade diminuísse, o empresário não perderia nada, pois a fábrica da prisão é apenas mais uma de suas filiais. Saindo um preso de lá, o mesmo poderia ser remanejado em uma filial externa. Não há perdas. Só remanejamentos. Uma vez que o custo de manutenção seria o mesmo das filiais externas, aumento de criminalidade não traria nenhum lucro ao empresário. O governo, por fim, ficaria na fiscalização. A prisão ainda seria do Estado. Havendo problemas, o Estado daria a concessão à outra empresa. É uma idéia.



É digno de nota que os países que permitiram a terceirização de alguns presídios, viram as prisões serem transformadas em lugares limpos, sem superlotação e com presos trabalhando dignamente. Aqui no Brasil a Penitenciária Industrial do Cairi (Ceará) e a Penitenciária Industrial de Guarapuava (Paraná) são exemplos de que a idéia é boa e dá certo.



Mas voltando ao tema principal, uma objeção comum a redução da maioridade penal é: “Se reduzirmos a maioridade para 16 ou 14 anos, os criminosos irão aliciar menores com 13 e 12 anos de idade. Então, teremos que reduzir sucessivamente a maioridade, até chegar a 3 anos”.



Esse argumento tem vários problemas. Em primeiro lugar, é fantasioso achar que crianças de 3, 4 e 5 anos vão sair por aí estuprando mulheres, dando facadas, segurando fuzis, correndo da policia, fazendo arrastões e etc. Criminosos podem até aliciar crianças, mas é virtualmente impossível que crianças tão pequenas sejam aliciadas.



Afora isso, é inegável que é muito mais fácil manter crianças dentro de casa, distantes da influencia de criminosos, do que adolescentes. Ainda que saibamos que muitos pais deixam seus filhos soltos desde pequenos, certamente a liberdade dos adolescentes é maior do que a das crianças. Assim, é bem pouco provável que tenhamos miríades de crianças com menos de dez anos, estuprando, roubando, matando e segurando fuzis por aí.



Mas ainda que alguém de 5, 6 ou 7 anos receba um revólver na mão e mate alguém, não necessariamente ela precisa ser presa. É óbvio que a situação é delicada. Ela precisará passar por análises de psicólogos e psiquiatras para que o Estado saiba até que ponto seu caráter e índole foram moldados. É claro que ela precisará passar por algum tipo de reeducação especial e que não vai ficar em uma cela com criminosos de 14, 16, 20, 30 e 40 anos. Mas estamos falando de um caso raro e que não temos motivos aparentes para pensar que se tornará comum se a maioridade for reduzida.



Em segundo lugar, não vejo muito sentido em achar que o número de pessoas aptas para o crime continuará o mesmo após a redução. Hoje os criminosos podem aliciar (e aliciam) garotos de 12 a 17 anos de idade. Se reduzirmos a maioridade para 13, por exemplo, haverá uma grande diminuição do contingente de aliciados.



Em terceiro lugar, ainda que criminosos aliciem crianças de 10 a 12, sabemos que estes não poderão gozar de tanto tempo cometendo crimes como hoje gozam.


Por fim, para as crianças que fossem aliciadas e cometessem crimes, o Estado poderia tomar providências diferentes a depender do tipo de crime cometido. Um menino de 12 anos que bate uma carteira não pode ser comparado a um de 12 anos que já matou meia dúzia de pessoas friamente (o que é raro). Ao segundo, uma espécie de detenção especial seria viável.


Quanto à educação… Ah, a educação! Esquerdistas normalmente pregam que se tivermos uma boa educação pública, nossos jovens não entrarão para o crime. Não vou me estender aqui comentando que acho terrível ter que depender do governo para ter uma boa educação. Mas gostaria de chamar a atenção para outro ponto: a negligência da família.



Sem a pretensão de ser religioso, me parece fato incontestável que a função de influenciar positivamente o menor para que o mesmo se torne uma pessoa de caráter é da família e não da escola (sobretudo, a escola pública!). A função da educação formal, no que tange a formação do caráter, é ser um complemento àquilo que deve ser aprendido em casa. Professores não são os pais de seus alunos.


Quando minha tia se queixa de como os alunos tem agido de modo desrespeitoso e grosseiro em sala de aula, vejo com clareza que esse problema não é culpa da escola ou dos professores, mas da família. Com raras exceções as famílias é que estão falhando em cuidar de seus filhos. É óbvio que o fato das famílias estarem falhando não retira a responsabilidade individual de um menor quando este transgride as regras sociais. Mas se devemos considerar alguma influência externa sobre o menor no que tange a formação do caráter, a principal influência a ser considerada deve ser a família, que é o primeiro e mais importante nicho social da maioria dos indivíduos.




A formação do caráter começa lá. E sabe como o governo pode ajudar as famílias a criar melhor os seus filhos? Deixando a função de ser família para a família e ficando apenas com a função de proteger o cidadão. Neste estado de coisas, ainda que a família não cumpra com a sua função, o Estado cumprirá a sua. E uma vez que o Estado se limite apenas àquilo que é seu dever, será mais fácil que as famílias passem a fazer o mesmo.


No fim das contas, o que se torna cada vez mais evidente é que quanto mais o Estado pretende ser o salvador do mundo, o regenerador dos corações dos pecadores, quem sai perdendo é o cidadão honesto. Sobre os ombros do cidadão honesto tem recaído toda a culpa dos criminosos.



Se alguém mata, nós somos os assassinos. Se alguém rouba, nós somos os ladrões. Se alguém estupra, nós somos os estupradores.  Pode parecer estranho, mas o cidadão honesto está sendo punido por tudo de ruim que ele não faz. Ele está sendo condenado por todas as suas virtudes. Choremos de horror.


O Estado soltou Barrabás. Seremos crucificados.

sábado, 1 de outubro de 2016

Odioso preconceito Olavo de Carvalho


Diário do Comércio, 29 de abril de 2013
          

O célebre historiador britânico George Macaulay Trevelyan, que ninguém dirá ter sido um conservador, escreveu em 1947: "A mais odiosa forma de preconceito moral está na historiografia que condena em voz alta os crimes e perseguições de um lado, e esconde ou defende os do outro." Ele não imaginava que um dia, num país do Terceiro Mundo, haveria de aparecer uma comissão subsidiada com dinheiro público para dar cunho oficial precisamente a esse tipo de historiografia. Talvez  imaginasse que semelhante aberração somente poderia existir nas ditaduras comunistas, onde a mentira histórica, imposta à população interna para fins de controle social e distribuída no restante do mundo como arma de guerra psicológica, era a norma em lugar da exceção.
 
Como membros do esquema revolucionário tricontinental montado por Fidel Castro, que os recrutou, treinou, equipou, comandou e protegeu, nossos guerrilheiros e terroristas dos anos 60-70 foram cúmplices do morticínio espalhado pela ditadura cubana na América Central, na América do Sul e na África, o qual não fez menos de cem mil vítimas (v. http://cubaarchive.org/home/).
 
Pelos critérios do Julgamento de Nuremberg, José Dirceu, Dilma Rousseff, José Genoíno e tutti quanti têm muito mais crimes pelos quais responder do que cento e poucos assassinatos praticados no Brasil, que são o máximo que a mídia paternal lhes atribui – desculpando-os aliás, implícita ou explicitamente, como reação ao golpe de 1964, embora as guerrilhas já tivessem começado  em 1962.
 
O que torna essa obviedade invisível não é só a deformação do julgamento histórico, mas a  falsificação geográfica do cenário onde os fatos se desenrolaram. Quando falam da violência militar, jornalistas e historiadores universitários jamais se esquecem de inseri-la no quadro internacional, descrevendo-a como manifestação local da articulação anticomunista montada entre vários governos do continente, com apoio dos EUA. 
 
Nessa perspectiva, nossos militares aparecem como cúmplices de todos os crimes praticados contra os comunistas em escala continental. Já as guerrilhas são invariavelmente mostradas como fenômeno apenas local, sem conexão internacional significativa nem, portanto, culpa nenhuma pelas misérias que o governo cubano andava aprontando em três continentes.
 
Essa dupla geografia baseia-se, por sua vez, numa falsificação radical da escala cronológica, pois os governos militares só se articularam para um combate conjunto às guerrilhas em 1975 – a chamada "Operação Condor" –, ao passo que o comando unificado das guerrilhas no continente já existia desde 1962, quando Fidel Castro fundou a OLAS, Organização de Solidariedade Latino-Americana, reforçada pela Conferência Tricontinental de Havana em 1966.
 
Ou seja: a reação militar ao avanço comunista ocorreu de início sob a forma de iniciativas nacionais independentes, só tardiamente se articulando em escala maior, ao passo que as guerrilhas surgiram desde o início como um empreendimento transnacional organizado. Na nossa mídia, tanto a escala geográfica quanto a cronologia dos fatos são sistematicamente invertidas há pelo menos duas décadas.
 
Acrescente-se a isso que, à margem dos grandes jornais, uma operação gigantesca de desinformação a respeito se desenvolve em livros escolares, programas de TV e sites da internet, a começar pela maldita Wikipedia, concebida precisamente para ser levada a sério só por meninos de ginásio, onde o início da "Operação Condor" aparece removido para datas  anteriores, às vezes até  para os tempos de João Goulart na Presidência, levando a falsificação ao extremo da mitologia propagandística mais torpe e descarada.
 
 Produzido com entusiasmo feroz e renitente por uma militância multitudinária, o volume desse material já ultrapassou de há muito, pela quantidade inabarcável, qualquer possibilidade de contestação racional. O advento da "Comissão da Verdade" foi preparado com bastante antecedência pela intoxicação goebbelsiana da opinião pública.
 
***
       
Se você estranha o descaramento com que os apóstolos do "mundo melhor" mentem, trapaceiam, metem a mão no bolso dos outros e ainda se acham as encarnações supremas da virtude, fique sabendo que isso não é nenhum desvio, nenhuma perversão do espírito revolucionário: é o próprio espírito revolucionário. 
 
Eis como Hippolyte Taine, o grande historiador da Revolução Francesa, descrevia,  em 1875 a mente dos jacobinos:
 
"Segundo o jacobino, a coisa pública é dele, e, a seus olhos, a coisa pública abrange todas as coisas privadas, corpos e bens, almas e consciências. Assim, tudo lhe pertence. Pelo simples fato de ser jacobino, ele se acha legitimamente tzar e papa. Sendo o único esclarecido, o único patriota, ele é o único digno de comandar, e seu orgulho imperioso julga que toda resistência é um crime... No entanto, resta-lhe pôr em acordo seus próximos atos com suas palavras recentes. A operação parece difícil, pois as palavras que ele pronunciou condenam de antemão os atos que ele planeja. Ontem, ele exagerava os direitos dos governados, ao ponto de suprimir os dos governantes; amanhã ele vai exagerar os dos governantes até suprimir os dos governados. "
 
E finaliza: "A dar-lhe ouvidos, o povo é o único soberano, e ele vai tratar o povo como escravo. A dar-lhe ouvidos, o governo não é mais que um criado de quarto, e ele vai dar ao governo as prerrogativas de um sultão. Ontem mesmo ele denunciava o menor exercício da autoridade pública como um crime, agora ele vai punir como um crime a menor resistência à autoridade pública.”

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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Quem disse que educação sexual é conteúdo obrigatório?

Por Miguel Nagib *


O presente estudo foi elaborado com os seguintes objetivos:

1 - desmentir a crença generalizada de que a educação sexual é um componente obrigatório do curriculum escolar (ao contrário do que se pensa, obrigatório, como veremos, é não veicular esse conteúdo no âmbito das disciplinas obrigatórias); e

2 - servir de subsídio aos pais para que eles pais exerçam, efetivamente -- recorrendo à Justiça, se necessário --, o direito, que lhes é assegurado pela Convenção Americana de Direitos Humanos, a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

Dado que a temática da educação sexual está compreendida no plano mais abrangente da educação moral, examinaremos aqui, de forma também abrangente, se o professor está legalmente obrigado ou autorizado a tratar de questões morais em sala de aula.

Cuidando-se de uma análise estritamente jurídica, não nos interessa saber se o que os professores estão ensinando em matéria de valores morais é positivo ou negativo (para isso, recomendamos que o leitor assista a este vídeo); nem se é conveniente ou inconveniente que questões morais sejam levadas para dentro da sala de aula (para isso, recomendamos a leitura desta entrevista); mas apenas se a Constituição e as leis do país permitem que isso seja feito e, caso permitam, em que condições.


Como ninguém ignora, as salas de aula estão sendo usadas de modo intensivo para promover determinados valores, com a finalidade de moldar o juízo moral, os sentimentos e as atitudes dos estudantes em relação a certos temas.


Que temas são esses? Depende da moda, das novelas, da ONU, da UNESCO e das minorias que controlam o MEC e as secretarias de educação. Pode ser orientação sexual, questões de gênero, “direitos reprodutivos” (p. ex., aborto), modelos familiares, ética, etc.


Os educadores chamam isso de “educação de valores”.


Não existe uma disciplina escolar intitulada “educação de valores”. Esse conteúdo é “espalhado” nas disciplinas obrigatórias do curriculum -- Português, Matemática, Geografia, Biologia, História --, por meio de uma técnica chamada transversalidade. Assim, por exemplo, numa aula de Ciências, ao tratar do aparelho reprodutor, o professor aproveita para explicar aos alunos “como se transa”; ou, numa aula de Comunicação e Expressão, o professor manda que os alunos leiam um texto que, a pretexto de combater o “preconceito”, promove o comportamento homossexual.

Nesse tipo de educação, o objetivo não é transmitir conhecimento, mas, sim, inculcar valores e sentimentos na consciência do estudante de modo que ele tenha determinado comportamento. É um tipo de lavagem cerebral, porque utiliza, muitas vezes, técnicas de manipulação mental bastantes conhecidas, conforme demonstrado por Pascal Bernardin, no livro  “Maquiavel Pedagogo ou o ministério da reforma psicológica”.

Acontece que os valores promovidos pela escola não coincidem necessariamente com aqueles que o estudante aprende em casa com seus pais. E isso fica muito claro quando o assunto é alguma questão relacionada à moral sexual.


Como se sabe, um dos temas mais explorados na educação de valores é a sexualidade. E, ao tratar desse tema nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) -- um documento que contém recomendações a serem observadas pelas escolas de todo o país --, o MEC adota dois princípios fundamentais:  “direito ao prazer” e “sexo seguro”. Tudo mais é rotulado de “tabu” ou “preconceito” (a palavra preconceito aparece 17 vezes no caderno de orientação sexual dos PCNs).


O texto abaixo -- extraído de um livro escrito para crianças de 7 a 10 anos, intitulado “Mamãe, como eu nasci?” -- é um exemplo de como a coisa funciona na prática. O autor, Marcos Ribeiro, é sexólogo, com curso de Educação Sexual pelo Centro Nacional de Educación Sexual (Havana, Cuba); consultor em Sexualidade para o Ministério da Saúde, Fundação Roberto Marinho, entre outras instituições públicas e privadas; parecerista para o Ministério da Educação nos Parâmetros Curriculares Nacionais e co-autor dos Parâmetros Curriculares Nacionais em Ação (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Ou seja, é um especialista que presta serviço para o governo e para entidades que atuam na educação de crianças e jovens.


Pois bem, ao tratar do tema da masturbação infantil, o Sr. Marcos Ribeiro, dirigindo-se a crianças de 7 a 10 anos, escreve o seguinte:


“Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso.
As pessoas grandes dizem que isso vicia ou "tira a mão daí que isso é feio". Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema. Você só tem que tomar cuidado para não sujar ou machucar, porque é um lugar muito sensível.
Mas não esqueça: essa brincadeira, que dá uma cosquinha muito boa, não é para ser feita em qualquer lugar. É bom que você esteja num canto, sem ninguém por perto.”


(Para ler outros trechos desse livro, clique aqui)
[Chamo a atenção para a sintonia entre a abordagem feita pelo autor e os princípios adotados pelo MEC nos PCNs: direito ao prazer e sexo seguro.]


Transcrevo, a seguir, uma passagem do caderno de Orientação Sexual dos PCNs que contém sugestões de temas a serem tratados em sala de aula:


“Com a inclusão da Orientação Sexual nas escolas, a discussão de questões polêmicas e delicadas, como masturbação, iniciação sexual, o “ficar” e o namoro, homossexualidade, aborto, disfunções sexuais, prostituição e pornografia, dentro de uma perspectiva democrática e pluralista [leia-se: relativista], em muito contribui para o bem-estar das crianças, dos adolescentes e dos jovens na vivência de sua sexualidade atual e futura.”


Em suma, não há dúvida de que as disciplinas obrigatórias do curriculum -- tanto das escolas públicas, quanto das particulares -- estão sendo usadas para promover determinados valores morais, especialmente, em questões ligadas à sexualidade.


O problema -- e aqui chegamos ao aspecto propriamente jurídico da matéria -- é que isto se choca com o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

Que direito é esse?

Além de ser um direito natural -- ou seja, um direito que existe  independentemente de estar previsto em lei, porque decorre da própria natureza das coisas --, esse direito é garantido expressamente pelo art. 12 da Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH), também conhecida como Pacto de São José da Costa Rica.

O art. 12 da CADH diz o seguinte:

“Os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.”

A CADH é um tratado internacional assinado pelo governo brasileiro que tem força de lei no Brasil desde 1992. Ou melhor: de acordo com o Supremo Tribunal Federal, a CADH, por ser um tratado sobre direitos humanos, está no mesmo nível hierárquico da Constituição Federal.


Ao dizer que os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções, a CADH está reconhecendo aos pais o direito de decidir a educação moral que será transmitida a seus filhos.

Ora, se cabe aos pais decidir o que seus filhos devem aprender em matéria de moral, nem o governo, nem a escola, nem os professores têm o direito de usar as disciplinas obrigatórias -- aquelas disciplinas que o estudante é obrigado a frequentar sob pena de ser reprovado --, para tratar de conteúdos morais que não tenham sido previamente aprovados pelos pais dos alunos.

Com outras palavras: o governo, as escolas e os professores não podem se aproveitar do fato de os pais serem obrigados a mandar seus filhos para a escola, e do fato de os estudantes não poderem deixar de frequentar as disciplinas obrigatórias, para desenvolver nessas disciplinas conteúdos morais que possam estar em conflito com as convicções dos pais.

Por outro lado, o art. 5º, inciso VI, da Constituição Federal, estabelece:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, (...);
Ora, se o governo, as escolas ou os professores usarem as disciplinas obrigatórias para tentar obter a adesão dos alunos a determinadas pautas morais, isso fatalmente se chocará com a liberdade de consciência dos alunos.

Observo, de passagem, que a liberdade de consciência é absoluta. As pessoas são 100% livres para ter suas próprias convicções e opiniões a respeito do que quer que seja. Ninguém pode obrigar uma pessoa a acreditar ou não acreditar em alguma coisa. O Estado pode obrigá-la a fazer ou não fazer alguma coisa, mas não pode pretender invadir a consciência do indivíduo para forçá-lo ou induzi-lo a ter essa ou aquela opinião sobre determinado assunto. Isto só acontece em países totalitários como Cuba e Coreia do Norte.


Como o ensino obrigatório não anula e não restringe a liberdade de consciência do indivíduo -- do contrário, ele seria inconstitucional --, o fato de o estudante ser obrigado a cursar determinada disciplina impede terminantemente que o Estado, a escola ou o professor se utilizem dessa disciplina para inculcar valores e sentimentos na consciência do aluno.


Além disso, é preciso considerar que a nossa religião é inseparável da nossa moral. Portanto, a liberdade religiosa dos nossos filhos também estará ameaçada se as disciplinas obrigatórias do curriculum veicularem conteúdos morais incompatíveis com os preceitos da nossa religião.


Como se vê, o ordenamento jurídico oferece ao estudante e seus pais toda a proteção necessária para impedir que o Estado, as escolas e os professores se utilizem das disciplinas obrigatórias para promover a tal "educação de valores".


Mas não é só isso. Parece-nos inaceitável que um Estado laico como o nosso possa usar o sistema de ensino para promover valores morais. Pela simples razão de que a moral é inseparável da religião (pelo menos no que se refere à religião da esmagadora maioria do povo brasileiro, que é o Cristianismo). Se o Estado não pode promover uma determinada religião, também não pode promover uma determinada “moralidade”.


Em todo caso, se o Estado pudesse utilizar o sistema de ensino para promover valores morais, seria necessário saber, antes de mais nada, que valores seriam esses. Haveria uma lista de valores? Quem iria aprovar essa lista? O Congresso Nacional? O Presidente da República? Os Governadores dos Estados? Os Prefeitos? Os funcionários do Ministério da Educação? Cada professor em sua respectiva sala de aula?


Por aí já se vê a absoluta impossibilidade constitucional da utilização do sistema de ensino para a promoção de uma determinada agenda moral. Mas, a despeito dessa impossibilidade constitucional, essa política está sendo aplicada em nosso país pela burocracia do MEC e das secretarias estaduais e municipais de educação, pelas escolas, pelos professores e pelas editoras de livros didáticos.


A abordagem de questões morais em sala de aula -- em prejuízo, diga-se, de conteúdos que a escola deveria transmitir aos alunos -- vem sendo feita sem nenhuma base legal. Não existe lei, votada pelo Congresso Nacional ou pelas Assembleias Legislativas dos Estados, determinando ou permitindo que o sistema de ensino seja usado com essa finalidade. E se lei existisse, ela seria inconstitucional.


Isso está sendo feito por iniciativa exclusiva de funcionários públicos. Servidores dos ministérios e das secretarias de educação e professores estão decidindo por conta própria o que deve ser ensinado aos nossos filhos em matéria de moral -- principalmente moral sexual. Funcionários públicos estão fazendo aquilo que o próprio Congresso Nacional não tem poderes para fazer.


Portanto, ao contrário do que se pensa, os professores e as escolas não só não estão obrigados a seguir as recomendações dos PCNs em matéria de educação sexual -- o que o próprio MEC reconhece --, como estão proibidos de fazê-lo.


Mas suponhamos, para efeito de raciocínio, que o Estado possuísse uma “lista de valores morais” e tivesse o direito de usar o sistema de ensino para promovê-la. Nesse caso, seria necessário compatibilizar o exercício desse direito com a liberdade de consciência e de crença dos alunos e com o direito assegurado aos pais pelo art. 12 da CADH. É que, obviamente, o exercício desse suposto direito por parte do Estado não poderia ocorrer em prejuízo da liberdade dos estudantes e do direito dos pais, ambos assegurados pelas leis do país.

No entanto, é exatamente isso o que vai acontecer se os temas da tal “educação de valores” forem veiculados nas disciplinas obrigatórias, como têm sido hoje em dia, por meio da técnica da transversalidade.

Pois bem, admitindo-se que o Estado pudesse usar o sistema de ensino para promover a moralidade estatal -- o que não é possível, conforme demonstrado --, qual seria a solução?

É simples. Bastaria que esses conteúdos fossem veiculados numa disciplina facultativa, a exemplo do que acontece com o ensino religioso. Conhecendo previamente o programa dessa disciplina, os pais decidiriam livremente se querem ou não que seus filhos a frequentem.

[Observação: É claro que nada disso se aplica às escolas confessionais, já que, ao matricular seus filhos numa dessas escolas, os pais manifestam de forma inequívoca a sua concordância com os princípios morais adotados pela instituição.]

Se isso fosse feito, estariam resguardados, de um lado, o (suposto) direito do Estado de usar o sistema de ensino para promover valores morais; e, de outro, o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções e a liberdade de consciência e de crença dos estudantes.

Enquanto isso não acontecer, o governo, as escolas e os professores estão obrigados a respeitar o direito dos pais e a liberdade de consciência e de crença dos alunos. E os pais podem recorrer ao Judiciário para fazer valer esse direito.

Em resumo: o art. 12 da CADH e o art. 5º, VI, da Constituição Federal, exigem que os conteúdos morais hoje presentes nos programas das disciplinas obrigatórias sejam reduzidos ao mínimo indispensável para a assegurar que a escola possa cumprir aquela que é a sua função primordial: transmitir conhecimento aos estudantes.

Tudo o que passar disso deve ser colocado, quando muito, no programa de uma disciplina facultativa. Conhecendo o programa dessa disciplina, os pais decidirão se querem que seus filhos a frequentem.


* Procurador do Estado de São Paulo, fundador e coordenador do site www.escolasempartido.org

domingo, 4 de setembro de 2016

CRIOU-SE UM CADÁVER POLÍTICO VIVO

Texto proposto por Marco Antonio Ruivo

A luta política atual no Brasil parece que terminou, quando na realidade criou-se UM CADÁVER POLÍTICO VIVO que irá ser utilizado com grande eficiência pela esquerda. Quando a tiraram da presidência e a deixaram com todos os direitos políticos deram a ela, esquerda, o maior instrumento que eles precisavam para sua sobrevivência.

A história nos ensina que UM CADÁVER é uma arma poderosa no campo da luta pelo PODER. O maior exemplo na história brasileira é o de GETÚLIO VARGAS, que ainda, depois de 50 anos

é utilizado pela esquerda. Quase transformam JUCELINO em outro, mas não deu.

O cadáver de Lenine é outro grande exemplo de exploração de um MORTO. Era preciso substituir a figura sagrada do TZAR por outra. Quem foi a Moscou, antes da queda da URSS, não deixou de ver a figura do líder que era o novo Deus.

Aqui, na América Latina, adoram criar deuses. Atualmente temos um tal de CHAVES que aparece para seu povo até como um passarinho.

A nossa ex-presidente vai sair por aí gritando que é uma injustiçada, que cometeram este crime para que os exploradores do povo fossem salvos. Vai mentir aos borbotões, afirmando que tudo começou na CIA, que querem ficar com o nosso petróleo e por aí afora. Vai se apresentar como vítima do machismo e tudo que foi dito contra ela é mentira deslavada e que ela não sabia de nada.

Vão tentar voltar ao Poder em 2018 e se não for resolvido parte da desgraça que vivemos eles irão voltar ao PODER e infelizes dos que a combateram.

Os mais falsos argumentos podem mostrar um ódio correto.

Karl Kraus

O ÓDIO DOMINA A POLÍTICA BRASILEIRA.

O ÓDIO É FILHO DA MENTIRA.

GRUPO GUARARAPES

1 DE SET 2016

COORDENADOR

GEN DIV DA RES TORRES DE MELO

O fim de um reduto de poder e conchavo







Texto proposto por Italo Pasini

Restaurante frequentado por Ulysses não resiste aos novos tempos das negociatas políticas





O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2016 | 05h00

Local de conchavos e bastidores políticos, o restaurante Piantella, na quadra comercial 202 Sul, fechou suas portas na semana passada após não resistir ao tempo de câmeras indiscretas de celulares, mensagens “criptografadas” do WhatsApp e negociatas elaboradas por renomados escritórios de lobby.

A tradição de um dos espaços de poder mais conhecidos de Brasília começou há quatro décadas com as negociações do senador Nelson Carneiro (MDB-RJ) para liberar o divórcio, ganhou forma com as conversas de Ulysses Guimarães (MDB e PMDB-SP) para a abertura política, se adaptou ao ecumenismo da esquerda e da direita no tempo do deputado Luiz Eduardo Magalhães (PFL-BA) até chegar, mais recentemente, aos discursos com choros e metáforas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.




Foto: DIVULGACAO
 


O Piantella sempre teve como marca o ambiente fechado, aconchegante, onde tesoureiros, de Paulo César Farias a Delúbio Soares, acenderam seus charutos.

 Mas quando PC Farias, no tempo do governo Fernando Collor, começou a aparecer por lá, o estabelecimento se preparava para a fase derradeira. Antigos frequentadores costumam dizer que é impossível imaginar Ulysses, o político que presidiu ao mesmo tempo o PMDB, a Constituinte e a Câmara, negociar na sua mesa cativa no Piantella pequenos cargos ou fazer negociatas envolvendo estatais.


 Lobistas no máximo davam “boa noite” ao “velho”. Quando um deles sentava à mesa, as pessoas saíam. Jornalistas não pediam informação, mas apenas ajuda para elaborar “raciocínios”, sem gravadores. Era um lugar de bastidores que precediam ações políticas. Ali não se fechavam acordos, se discutiam rumos.


Parlamentares e ministros influentes do PT mantiveram a tradição do poder de frequentar o Piantella até o escândalo do mensalão, quando se retraíram. Com os celulares com câmeras, as gorjetas expressivas deixaram ser dadas pelos frequentadores, cada vez mais preocupados em evitar a ostentação. Sem extras, os garçons começaram a se preocupar mais com o salário na carteira e reclamar direitos.


Terceira onda. O restaurante tinha o estilo de seu dono, o mineiro Marco Aurélio Costa, de 65 anos. O Piantella sentiu o impacto dos novos tempos. A política de raiz mineira foi substituída por negociações que já chegam prontas a Brasília e as conversas regadas a uísque foram trocadas por mensagens escritas no celular.


“O doutor Ulysses, um pai para mim, dizia que as conversas são melhores numa mesa de restaurante, depois da segunda dose de uísque”, diz Costa. “Conversas na casa ou no escritório de quem convida ou é convidado sempre são constrangedoras”, completa. “Hoje, homens e mulheres vão para o restaurante, mas querem conversar pelo zap”, lamenta o mineiro.


Ele lembra que Ulysses mandou preparar picadinho à brasileira para Miguel Arraes na volta do político pernambucano do exílio. Nas mesas com cadeiras estofadas e no bar do Piantella foram discutidas a anistia, a anticandidatura de Ulysses, as diretas e a sistematização da Constituinte.
Poire. Ao ser diplomado presidente em dezembro de 2002,


 Lula foi almoçar no restaurante com petistas e Nelson Jobim, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. “Se eu ganhei a eleição é porque a coisa é honesta. O sistema é limpo”, disse Lula, numa homenagem a Jobim, um dos nomes influentes dos bastidores do PMDB e depois do PSDB. Emocionado, afirmou que o Brasil ganhava um presidente “chorão”.


Na ocasião, Lula pediu uma taça de poire, a aguardente de pêra que Ulysses costumava pedir, que virou uma espécie de símbolo de quem conquistava poder. Era a celebração do início de uma aliança do PT primeiro com siglas como o PL, de Valdemar Costa, e o PTB, de Roberto Jefferson, e depois com o PMDB de Michel Temer, Renan Calheiros e Geddel Vieira Lima.




Foto: DIDA SAMPAIO | AE
 


Cadeira cativa. O restaurante foi aberto com o nome Tarantella, marca perdida por Costa em uma disputa judicial. Era na época apenas o restaurante preferido do oposicionista MDB. O poder mesmo, exercido pelos generais, à direita, frequentava o Gaf, no centro comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul. Com a redemocratização, o Piantella passou a disputar o posto de restaurante dos influentes com o Florentino, aberto naqueles dias. Mas Ulysses escolheu o estabelecimento de Costa para comemorar, em 1985, a primeira interinidade na Presidência.


Depois da morte de Ulysses, em 1992, o Piantella manteve a cadeira cativa do parlamentar na área superior do mezanino. O restaurante passou, então, a ser conhecido pela assiduidade do deputado Luiz Eduardo Magalhães (PFL), que ali negociou a entrega da cadeira de presidente da Câmara para Michel Temer (PMDB), dos petistas José Genoino, Paulo Delgado e José Dirceu e do pedetista Miro Teixeira. No restaurante, Temer comemorava conquistas de espaços no governo Fernando Henrique. Dirceu, Marta Suplicy e Duda Mendonça brindaram a chegada do PT ao poder.


Dívidas. As dívidas se acumularam. Em 2014, com a moeda desvalorizada, Costa vendeu por R$ 1 sua participação no restaurante para o advogado Antonio Carlos de Almeida, o Kakay, que já tinha 50%. Kakay e a mulher Valéria Vieira fizeram uma reforma que descaracterizou o local. Não era mais o Piantella aconchegante, o gueto dos poderosos.



Em mensagem enviada na semana passada a amigos, Kakay afirmou que não era mais possível manter o Piantella, que sofria com a concorrência de outros restaurantes, como o Trattoria da Rosario, no Lago Sul, o Gero, no Lago Norte, e o Piantas, também do advogado, na 403 Sul.


No período democrático, Collor e Dilma foram os únicos presidentes que, no exercício do cargo, evitaram conversas políticas, muito sabiamente, sob os ouvidos de jornalistas e assessores.  

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Sobre o que você vai escrever hoje?Ou...O mundo em que estamos vivendo.



Eu juro que estou tentando



Ruth Manus

31 Agosto 2016 | 10h23


Hoje é um dia complicado. Tudo o que eu sinto que deveria escrever hoje, sei que vai me custar muito caro. E eu tô com a pressão baixa, não vai dar boa coisa.


Mas posso escrever sobre ódio. Porque é o que está reinando no país, especialmente hoje. ÓDIO? VAI ESCREVER SOBRE ÓDIO? VAI PIORAR AINDA MAIS AS COISAS? Desculpe, tem razão.


Talvez eu deva escrever sobre nojo. NOJO? O PAÍS ESTÁ MELHORANDO, ESTÁ SENDO FEITA UMA LIMPEZA. Desculpe, eu discordo. Talvez seja melhor eu fechar os olhos e escrever sobre outra coisa.


Já sei. Vou escrever sobre o riso. SOBRE O RISO? VAI ESCREVER SOBRE O RISO NUM PAÍS TÃO CHEIO DE DESGRAÇA? QUE PIADA. Desculpe.


 Então vou escrever sobre o choro, sobre a dor. VAI ESCREVER SOBRE O CHORO, SUA INCONSEQUENTE? VAI DEPRIMIR AINDA MAIS UM POVO QUE JÁ SOFRE TANTO? Desculpe, tem razão. Vou escrever sobre superação, então. Sobre não deixar o sofrimento vencer. ERA O QUE FALTAVA. ACHA QUE É FÁCIL? ACHA QUE AS PESSOAS SOFREM PORQUE QUEREM? VIROU PSICÓLOGA? Verdade. Desculpe.


Vou escrever sobre salaminho, então, ainda mais neutro. Salaminho é gostoso, rende boas conversas no bar. SALAME?! VOCÊ NÃO PENSA NOS VEGETARIANOS NÃO? NÃO PENSA NOS ANIMAIS? Desculpe, então vou escrever sobre rúcula. Sobre folhas amargas. Sobre amargor.



PRONTO. TA AÍ. DITADURA DA MAGREZA. VAI FAZER AS PESSOAS SE CULPAREM POR COMEREM PÃO É? Tem razão, desculpe. Então vou escrever sobre pirulitos. Aqueles grandes, coloridos, que fazem a gente se lembrar da infância. HAHAHA. PIRULITO. ISSO É TEMA PARA UM JORNAL DESSES? GENTE, QUEM CONTRATOU ESSA GAROTA?



Tem razão, desculpe, imaturidade minha. Sou novata. Então fico só com a parte da infância. Vou escrever sobre a infância. SOBRE A SUA INFÂNCIA, VOCÊ QUER DIZER. SUA INFÂNCIA DE CLASSE MÉDIA ALTA, ENQUANTO CRIANÇAS MORREM DE FOME POR AÍ. É verdade, desculpe. Vou escrever sobre as crianças sírias.



CRIANÇAS SÍRIAS? TEMOS CRIANÇAS MORRENDO NO BRASIL, MINHA QUERIDA. Tem razão, me desculpe. Vou escrever sobre a miséria no nordeste. Estou lendo Rachel de Queiroz agora, por sinal.  VAI ESCREVER SOBRE O NORDESTE, É? EM CENÁRIO DE IMPEACHMENT? SINTOMÁTICO, HEIN? QUER NOS CONTAR ALGUMA COISA? Não. Desculpe. Era só o nordeste mesmo. O jornal não me contratou para escrever sobre política.



Vou escrever uma poesia então. POESIA?! VOCÊ? QUEM É VOCÊ PARA ESCREVER POESIA? TEMOS AQUI A NOVA FLORBELA ESPANCA, HAHA? Desculpe. Talvez não seja poesia. Acho que não é poesia mesmo. São só umas rimas. Deixa pra lá. Vou escrever sobre sapatos. FÚTIL. Sobre morte. NEGATIVA. Sobre feminismo. EXTREMISTA. Sobre amor. CLICHÊ. Sobre sexo. PROMÍSCUA. Sobre árvores. MONÓTONA. Sobre violência. INOPORTUNA. Sobre democracia. PETRALHA. Sobre fé. ANTIQUADA.



Desculpe. Não sei mais. NÃO SABE? FICOU SEM IDEIAS? UMA COLUNISTA DE JORNAL SEM CRIATIVIDADE? LOGO HOJE? Eu tentei, mas vocês não gostam de nada. Está ficando difícil. AH, AGORA VOCÊ PRECISA DO NOSSO AVAL? ONDE ESTÁ SUA CORAGEM GAROTA? ENCARE AS CRÍTICAS. POSICIONE-SE.




Tá certo, desculpe. Vou melhorar. O silêncio é difícil, mas as palavras têm um preço muito alto. E eu tenho ascendente em câncer, dói.


ENGULA ESSE CHORO, AGUENTE A PRESSÃO. NÃO SE COMPORTE COMO MULHERZINHA. DEFENDA SUAS RAZÕES. HONRE SEU POSTO. NÃO AGUENTA, PEDE PRA SAIR, MINHA FILHA.