domingo, 12 de junho de 2016

5 motivos pelos quais há mais oposição ao PT que aos demais partidos brasileiros






Afinal, se todos os partidos são comprovadamente corruptos, por que há mais oposição ao PT que aos demais?


De fato, nós vivemos num período de rejeição histórica à política nacional. Partidos tradicionais – como PSDB, PMDB e PP – envolvidos em uma série de denúncias que compromete algumas das mais influentes das suas figuras públicas, escancaram não apenas o caos epidêmico que acomete a confiança das pessoas em Brasília, como a falta de alternativas viáveis ao país. Ninguém escapa.


Ainda assim, provocando aquilo que os petistas encaram como um processo de indignação seletiva, quase sempre o PT é apontado pela população com destaque. Segundo o IBOPE, o partido lidera o ranking de rejeição no país. E não pense que é algo pequeno. Segundo a pesquisa, 38% da população brasileira afirma hoje rejeitar o PT. Isso é mais de um terço da população. O PSDB, que aparece em segundo lugar, tem míseros 8% de rejeição. O PMDB tem 6%. É uma diferença gritante. E a pergunta é: por que?


Seria isso tudo o mero descontentamento de uma elite não satisfeita com o crescimento econômico dos mais pobres, como afirmam os petistas? Há mesmo tanta elite no país?



Abaixo, dediquei 6 mil palavras para tentar explicar, em cinco tópicos, por que esse fenômeno ocorre. Há aqui parte considerável do modus operandi do partido, já identificada por boa parte da população – consciente ou inconscientemente. Eis um tratado sobre a última década do país e a exposição de um projeto político entregue à maior rejeição que se tem notícia em nossa história.


1. Porque o PT aparelha como ninguém.



Há poucos dias, o PT aprovou um documento chamado “Resolução sobre conjuntura”, onde o seu Diretório Nacional analisa os processos políticos que desencadearam o “golpe” e se penitencia para entender “de forma autocrítica” os erros cometidos para que a “ofensiva restauradora” do “grande capital” obtivesse êxito no país. 


No documento, além de dar à Lava Jato “um papel crucial na escalada golpista”, orquestrado pelas “classes dominantes brasileiras”, o partido assume que a natureza do impeachment só foi possível porque afrouxou o seu ideal bolivariano, ao priorizar um “pacto pluriclassista” na eleição de Lula, em detrimento da construção de um governo revolucionário da classe trabalhadora.


E não ter sido completamente eficiente no aparelhamento do Estado é parte fundamental desse mea culpa.
“Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação.”

De fato, se a fisiologia é uma característica escancarada do presidencialismo de coalização, o PT elevou a infiltração aos organismos do Estado a uma outra modalidade.


E não apenas isso. Por décadas o partido alimenta também um Estado paralelo, fortalecendo organizações de classe marginais ao republicanismo que ameaçam as instituições do país ao menor mau humor das suas lideranças. A prática alimenta capital político e militante ao PT, e é sustentada por dinheiro público – numa espécie de caixa dois institucionalizado, onde o dinheiro do contribuinte é usado pelas vias legais para alimentar organizações civis político-partidárias.


Foi assim que o MTST, feito um Ministério Paralelo das Cidades, recebeu R$ 89 milhões do Minha Casa Minha Vida. E ele não foi o único.


A CUT (que centraliza 33% dos trabalhadores sindicalizados do país), feito um Ministério Paralelo do Trabalho, recebeu mais de R$ 340 milhões desde 2008 apenas de imposto sindical (são mais de R$ 50 milhões repassados diretamente pelo Ministério do Trabalho todos os anos à organização), além de outros R$ 2,3 milhões desde 2007 de apoio de estatais como a Petrobras e o BNDES para a realização de eventos e projetos culturais – um desses projetos, o Prêmio CUT: Democracia e Liberdade Sempre, em 2011 premiou o ex-presidente Lula com o título de “Personalidade de Destaque na Luta por Democracia e Liberdade” (na mesma edição, o MST ganhou como “Instituição de Destaque na Luta por Democracia e Liberdade”).


O MST, aliás, é outra organização extraoficial do petismo. Feito um Ministério Paralelo do Desenvolvimento Social e Agrário sem representação legal, apesar de atuar desde a década de 80, o movimento recebe milhões em repasses para operar como uma milícia paramilitar que Lula ameaça colocar nas ruas sempre que confrontado. Por não possuir um CNPJ é árdua a tarefa de identificar os repasses para eventos e atuações do movimento, que são feitas em nome de outras entidades, como sindicatos rurais e associações de assentamentos. 



Por invadir terras e prédios, o MST é proibido por lei de receber dinheiro público. E é por isso que recorre a laranjas. A Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), por exemplo, foi uma delas até pouco tempo. Em 2010, a entidade foi obrigada a devolver pouco mais de R$ 8,3 milhões aos cofres públicos. E o motivo da condenação expõe o modus operandi do Estado paralelo criado pelo petismo.



Em 2004, a Anca celebrou um convênio com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, com o objetivo de alfabetizar 30 mil jovens e adultos e capacitar 2 mil alfabetizadores em 23 estados. Quase uma década depois, o Tribunal de Contas da União descobriu que a verba foi usada para a compra de 22 mil marmitex, camisetas e aluguel de equipamento de som. 


Ou seja: o dinheiro público aprovado para ampliar a educação nas áreas rurais do país foi integralmente utilizado para realizar comícios e campanhas políticas para o petismo. Até 2006, quando os contratos foram suspensos, a entidade já havia recebido mais de R$ 22,3 milhões em repasses por meio de convênios com o governo federal.


E não foi a única. Até 2009 eram pelo menos 43 entidades laranjas do MST que, juntas, desde 2003 já haviam recebido mais de R$ 153 milhões do bolso dos contribuintes. Durante esse tempo, os repasses federais explodiram ao passo que a luta pela terra virou uma atividade secundária à organização: o número de famílias acampadas ligadas ao movimento diminuiu de 32.738 famílias para 1.204 apenas durante o governo Lula. 


O financiamento público virou um mero artifício político-partidário.



Esquemas com esse tipo de entidade, aliás, não raramente são utilizados para financiar a campanha de candidatos petistas. O deputado federal João Daniel (do PT de Sergipe), por exemplo, teve o seu mandato cassado em 2015 por desviar ao menos R$ 367 mil de recursos públicos. Segundo as investigações, o dinheiro foi desviado da Assembleia Legislativa de Sergipe em 2014, quando Daniel ainda era deputado estadual, por meio de repasses feitos a organizações laranjas do MST.


O esquema funcionava assim: o dinheiro público era repassado às organizações laranjas, que contratavam prestadores de serviços laranjas. Essa verba era transferida dessas empresas para integrantes do esquema. Uma delas, a HG Serviços, fez diversos depósitos nas contas de uma longa lista de militantes e dirigentes do MST no estado, em valores que variam de R$ 500 a R$ 1,5 mil. Segundo a denúncia, os recursos serviram para irrigar “com recursos públicos a base política do deputado durante as eleições”. 


Os procuradores afirmam que há indícios de crimes de peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, improbidade administrativa e doações ilegais de campanha. Além de João Daniel, outros dez deputados estaduais e um federal de Sergipe foram alvos de pedidos de cassação por supostamente participarem desse esquema, que chegavam a R$ 1,5 milhão por deputado.



A própria reforma agrária, não por acaso, foi instrumentalizada dessa forma. Em abril, o Tribunal de Contas da União determinou a paralisação imediata do programa do Incra. A medida veio como resposta a uma auditoria que identificou mais de 578 mil beneficiários irregulares do programa de reforma agrária do governo federal (30% de toda a sua base de beneficiários). 



Entre eles, 144 mil funcionários públicos, 1.017 políticos eleitos, 61 mil empresários, 4.293 proprietários de carros de luxo (como Porsche, Land Rover ou Volvo), 213 estrangeiros e 37 mil mortos. É a maior fraude já registrada no setor que se tem notícia na nossa história.



E o Estado paralelo atua em outras frentes. Desde 2006, a UNE, uma espécie de Ministério Paralelo da Educação, já recebeu R$ 55,9 milhões da administração pública, entre doações de estatais, transferências diretas e patrocínios de ministérios. Lula foi o campeão nesse quesito: ao deixar o Planalto, o ex-presidente havia contribuído com incríveis 97,4% de todo o dinheiro público que chegou até os cofres da organização. São cifras que garantem o apoio de estudantes sindicalizados ao governo mesmo quando ele corta subsídios no setor.



Dessa grana toda, a maior parte – R$ 44,6 milhões – veio do Ministério da Justiça em duas ocasiões. O primeiro repasse, de R$ 30 milhões, feito em 2010, transferido para a entidade sob a alegação de ser uma indenização pelo incêndio de sua sede no Rio de Janeiro, ocorrido logo após a tomada de poder pelos militares em 1964 (o repasse corresponde a 6 vezes o valor de mercado do terreno e tinha como destino a construção de uma nova sede). E o segundo, de R$ 14,6 milhões, foi realizado em 2013 justamente para acelerar a construção do prédio.



Mas não pense que o negócio rolou. A UNE não quis gastar esse dinheiro. Pelo contrário – decidiu construir uma parceria com uma construtora, que prometeu bancar a obra para a organização desde que ela cedesse o terreno e algumas salas para exploração comercial. A UNE, que já lucra com o monopólio das carteiras estudantis no Brasil, não pensou duas vezes antes de lucrar também com o seu terreno.


O Estadão, que revelou essas informações, entrou em contato com a organização para entender como ela está aplicando os R$ 44,6 milhões que recebeu do governo federal. Mas não obteve retorno. A resposta também não foi encontrada no site oficial da UNE, que carece de dados sobre prestações de contas (os links encontram-se quebrados), apesar das verbas públicas milionárias que movimenta. Há quem acredite que a organização não precisará colocar um único centavo na obra.



A W/Torre, que está por trás da nova sede da UNE, é uma das construtoras investigadas na Lava Jato. E também graças a um edifício no Rio de Janeiro. Segundo a delação premiada do ex-diretor da área Internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, Lula indicou à W/Torre a construção de um prédio na Rua do Senado, no centro da capital fluminense, nas proximidades da Petrobras. Assim que construído, o projeto foi apresentado para a estatal, que decidiu alugar o prédio até 2029. O valor? R$100 milhões por ano – ou quase 2 bilhões de reais até o final do contrato. Gastos num único aluguel.




Os casos de aparelhamento transformam o país num verdadeiro bacanal. O Ipea analisou as transferências de verba federal para ONGs, fundações, pastorais de igrejas e outros tipos de organizações civis entre o período de 1999 e 2010. Em uma década o valor dos repasses dobrou. Era R$ 2,2 bilhões em 1999. Passou para R$ 4,1 bilhões em 2010.



Segundo o estudo, até 2010, 3.342 entidades sem fins lucrativos de todo o país recebiam repasses do governo federal. E as entidades não são obrigadas por lei a prestar contas. De acordo com o Tribunal de Contas da União, entre 1999 e 2010, mais da metade dos repasses federais às ONGs brasileiras não foram fiscalizados, num total de R$ 21,1 bilhões empenhados, cuja aplicação não teve qualquer acompanhamento. 



Para o Ipea, houve picos no repasse das verbas em anos eleitorais e pré-eleitorais (2006, 2009 e 2010). Segundo a fundação pública, “há uma concentração no valor dos repasses, com poucas organizações recebendo muito e muitas recebendo pouco, e também no tipo de entidades beneficiada”. Em geral, para ONGs apadrinhadas politicamente, a fiscalização tende a ser mais falha; para as demais, tende a ser mais rigorosa.



Não por acaso, logo no primeiro ano de Dilma na presidência, uma sequência de escândalos envolvendo os repasses às ONGs conveniadas com o governo federal derrubou os ministros Orlando Silva (do Esporte), Pedro Novaes (do Turismo) e Carlos Lupi( do Trabalho). Os esquemas são quase sempre os mesmos, com o governo federal liberando verbas às organizações mediante o pagamento de propinas que vão de 5% a 20%. Mesmo com o cenário epidêmico, no ano seguinte, com eleições municipais, os repasses aumentaram e as organizações foram autorizadas a receber quase R$ 1 bilhão extra.


Nem o carro chefe do Estado oficial, abraçado por um lista interminável de organizações que dão base ao Estado paralelo, escapou da maracutaia. Segundo o Ministério Público Federal, a partir do cruzamento de dados do antigo Ministério do Desenvolvimento Social, com informações de órgãos como a Receita Federal, tribunais de contas e o TSE, só em 2013 e 2014 pelo menos R$ 2,6 bilhões do total da verba reservada ao Bolsa Família foram parar no bolso de quem não precisava. 



Tem noção de quanto é essa grana? Nós estamos falando de mais de 1 milhão de casos de fraude em todos os estados brasileiros, que segundo a procuradora Renata Baptista ainda é uma estimativa “conservadora”. Desses, 585 mil beneficiários ilegais foram funcionários públicos. Mais da metade. E isso que apenas servidores com quatro ou menos familiares entraram no estudo, o que dá uma dimensão do tamanho do estrago que ainda pode ser revelado.



Em resumo: como nunca antes na história, por mais de uma década, um Estado paralelo foi criado no país a partir de organizações de classe aparelhadas pelo petismo, sustentadas pelo Estado oficial através do bolso dos contribuintes para defender um projeto político-partidário e garantir benesses injustificadas aos seus membros. São essas organizações, não por acaso, que tomam as ruas agora para gritar por um golpe que não existe. São elas também as primeiras a questionar por que, afinal, o petismo possui tamanha oposição da sociedade civil.


2. Porque o PT subsidia a elite como ninguém.



Elite. Poucas palavras são tão corriqueiras no discurso petista.


Para Lula, Dilma foi reeleita “para a desgraça das elites” e sofre um impeachment porque “a elite não gosta de democracia”. Segundo ele, as “elites não perdoam o PT pela ascensão dos mais pobres” e odeiam Dilma porque têm “preconceito contra mulher”. Dilma, por sua vez, diz ter sido vaiada na abertura da última Copa do Mundo por uma “elite branca” que “sempre teve dificuldade de entender as diferenças do país”.



Se você acompanhou minimamente o noticiário político do país nos últimos anos, não deve ter se surpreendido com nenhuma das frases acima. Há muito tempo, discursos como esses se repetem ininterruptamente nos palanques do petismo, da alta cúpula do partido aos carregadores de bandeira dos comícios. Se você, no entanto, olhou mais atentamente também a outro tipo de noticiário – o econômico – já deve ter sacado o que se passa com todas essas bravatas: não passam de propaganda.



Longe do público que consome esse tipo de apelo populista, o petismo, pelo contrário, se tornou a corrente política que mais subsidiou a elite brasileira em nossa história. E nada disso foi de graça, como você deve imaginar.


Nesse sentido, poucos instrumentos estatais serviram tanto a esse interesse quanto o BNDES, um banco de desenvolvimento aparelhado durante o petismo para criar campeões nacionais – leia-se: formar uma casta de ricos sustentada com juros subsidiados pelos mais pobres – em troca de propinas e o financiamento de campanhas do partido. Não por acaso, só no primeiro semestre do ano passado, o BNDES destinou 65% de seus empréstimos para 1% das empresas, aquelas de grande porte cujo faturamento ultrapassa R$ 300 milhões anuais (0,5% das empresas que contratam o banco). E 2015 não foi uma exceção.




Em geral, segundo o relato de executivos de duas construtoras investigadas pela Lava Jato, o esquema com o banco envolvia o pagamento de 1% de propina para o PT a cada desembolso dos empréstimos feito pelo BNDES. E eles rolaram. Aos montes. Segundo o Ministério Público, o BNDES recebeu do Tesouro Nacional cerca de R$ 500 bilhões de maneira irregular, que incharam o banco nos últimos anos. Os empréstimos, não por acaso, explodiram – a instituição passou a ser responsável sozinha por quase 21% do crédito disponível no país.Fonte: BNDES.



Quem mais se deu bem com isso tudo? Uma nova elite. Enquanto o PT dizia que ela lutava para derrubá-lo, atrás dos palanques era ela quem sustentava o seu projeto. Não por acaso, em 2014, Dilma recebeu sozinha mais doações de campanha que todos os candidatos à presidência somados. 



Oficialmente, quase R$ 65 milhões dos valores arrecadados pela campanha de Dilma foram financiados pelas empreiteiras investigadas na Lava Jato. Sozinho, esse montante é maior que todo financiamento de campanha da terceira colocada na eleições, Marina Silva. E isso para não falar das doações ilegais recebidas que a Polícia Federal está investigando – de empreiteiras a grandes indústrias.



Dilma também foi campeã em outro quesito: recebeu mais doações de campanha dos bancos que todos os demais candidatos somados. E isso enquanto os acusava de serem protegidos pelo setor. E as doações não vieram sem motivo: o lucro dos bancos durante o governo Dilma foi o maior da história. Entre 2002 e 2010, os 9 maiores bancos brasileiros expandiram seus lucros em 550% – a situação ficou tão confortável ao setor que se somássemos o lucro dos quatro maiores bancos do país, esse valor seria maior que o PIB de 83 países. 



Só o Itaú/Unibanco, que Dilma acusava de estar protegendo a candidatura de Marina Silva nas últimas eleições, teve um lucro de R$ 23,35 bilhões em 2015 – o maior lucro anual da história de um banco registrado até hoje. Só entre julho e dezembro do ano passado, os gastos do governo com juros foi de R$ 275,916 bilhões, contra R$ 191,134 bilhões do mesmo período no ano anterior. Aos historiadores, se fosse possível apontar um único partido em toda história republicana brasileira que governasse defendendo os interesses dos banqueiros, esse seria sem dúvida o Partido dos Trabalhadores.



E isso para não falar daquele que foi o rosto empresarial do petismo: Eike Batista. Para Dilma, por um tempo ele era “nosso padrão, nossa expectativa e orgulho do Brasil”, um empresário que “tem capacidade de trabalho”, que “busca as melhores práticas”, “quer tecnologia de última geração”, “percebe os interesses do país” e “merece o nosso respeito”. 



Eike virou um símbolo do governo e o governo, logo, virou um símbolo para Eike. O BNDES lhe permitiu um empréstimo de R$ 10,4 bilhões. A Caixa deixou que a sua dívida de pouco mais de R$ 1,1 bilhão fosse paga em 40 anos. O petismo era um fiel escudeiro de Eike, emprestando dinheiro com a carteira dos outros. E Eike virou um dos homens mais ricos do planeta. Antes de seguir o mesmo rumo do governo que lhe apoiava, porém, entrando em fritura e falência, o grande símbolo da elite brasileira fez questão de retribuí-lo. 


Como apontou há poucos dias Mônica Moura, mulher de João Santana, Eike contribuiu com Lula e Dilma nas eleições de 2006, 2010 e 2014, realizando pagamentos ilegais na ordem de R$ 110 milhões. Era uma mão lavando a outra. O governo tornava Eike um dos homens mais ricos do mundo, Eike ajudava a transformar o petismo na ideologia mais poderosa do país.


3. Porque o PT manipula a opinião pública como ninguém.



E o aparelhamento que deu base a organizações de classe que sustentaram o petismo nas ruas, que se estendeu a uma elite de empreiteiros, banqueiros e grandes empresários que sustentaram financeiramente o petismo nas urnas, alcançou a formação de opinião com o aparelhamento de parte da classe artística do país, já historicamente identificada com valores de esquerda, e de uma nova imprensa nacional.


Entre 2003 e 2014, as autorizações para a captação de recursos apenas pela Lei Rouanet atingiram R$ 61,27 bilhões (e nunca é demais lembrar que pela Lei de Responsabilidade Fiscal, cada renúncia aprovada pelo governo deve ser coberta por uma receita, o que, na prática, torna os projetos que conseguem captação recebedores de um investimento direto do governo, ainda que pelo caminho da isenção fiscal). A lei cria uma verdadeira casta de artistas. De todos os projetos que conseguiram captação em 2014, por exemplo, 50% dos recursos ficaram com apenas 3% dos proponentes – ou seja, ligados aos artistas mais ricos e conhecidos do país. 


Na prática, R$ 650 milhões de “investimento” em cultura através de uma único canal. E o papel do governo na escolha desses projetos é decisivo. Das 15 empresas que mais apoiaram projetos aprovados pela Lei Rouanet em 2015, 7 são estatais – o BNDES e o Banco do Brasil são as duas instituições campeãs nesse quesito. Ou seja: em boa parte dos projetos o governo não apenas foi responsável pela aprovação, mas pela captação do recurso.



Ao longo dos últimos meses, publicamos diversas matérias demonstrando como uma casta de formadores de opinião estava sendo formada ao redor do petismo – uma dessas matérias, não por acaso, acabou gerando uma CPI da Roaunet. E a Rouanet nem de longe foi o único incentivo para isso. Aqui, mostramos como alguns dos artistas que mais defenderam o petismo nos últimos anos foram financiados diretamente pelo governo federal das mais diferentes formas. 



De fato, a relação da classe artística com o governo ficou tão evidente nas últimas semanas que o setor foi um dos mais incisivos no apoio à presidente afastada, a ponto de ocupar diversas secretarias de cultura ao redor do país como forma de protesto ao novo presidente empossado. Nenhum outro setor reagiu como tamanha atuação.





E Camila Pitanga talvez seja o grande retrato dessa relação. Diretora do Movimento Humanos Direitos – grupo de artistas que faz lobby político e conta com a participação de figuras de esquerda como Wagner Moura, Letícia Sabatella, Osmar Prado e Vanessa Giácomo – Camila é envolvida diretamente com a política ao menos desde os 15 anos, quando se filiou ao Partidos dos Trabalhadores.



Mais do que estrela de novela, nos últimos anos a atriz se tornou também uma estrela da propaganda brasileira – mais especificamente da Caixa Econômica Federal. Entre 2012 e 2013, Camila foi figura carimbada nos comerciais do banco. Durante o período em que esteve à frente das peças publicitárias da instituição, a Caixa Econômica Federal ultrapassou a Ambev e se tornou o 3º maior anunciante do mercado brasileiro, com um crescimento de 58% do valor aplicado em mídia durante o período – um gasto de R$ 676,5 milhões. Seguindo seus passos, a Nova/SB, agência responsável pela campanha, teve um crescimento expressivo de 108% no período. O cachê recebido pela atriz? Uma incógnita. A instituição afirma que o valor é uma informação “estratégica”. 



De fato, Camila teve presença cativa no dia a dia do país: apareceu em 7.336 inserções dos intervalos da programação televisa em 2012. Nenhuma celebridade esteve à frente dela no período – nem Neymar, nem Ronaldo, nem Gisele Bündchen. Em 2013, a atriz viu o governo federal aumentar em mais de 800% os gastos com propaganda do Minha Casa, Minha Vida, se tornando a grande estrela daquele que era visto como a grande cartada para as eleições do ano seguinte – desde 2011 até a última eleição, os gastos em propaganda com o programa teve um aumento superior a 6.000%. Camila, que hoje é uma das principais vozes contra o “golpe”, após mais de uma década declarando publicamente o voto no partido, se transformou no rosto do primeiro mandaoto do governo Dilma.



E seu caso conecta o governo com outro escândalo: os contratos de publicidade. Durante a 11ª fase da operação Lava-Jato, a Polícia Federal anunciou investigar indícios de irregularidade nos contratos publicitários da Caixa. Não era o único. Uma das primeiras ações do governo Temer, não por acaso, foi reavaliar os contratos de publicidade autorizados durante o governo Dilma. A expectativa é que isso abra uma caixa preta. 


A suspeita é que o mesmo esquema padrão de desvio dos usuais 10% nas licitações de obras públicas, nos contratos das estatais, nos repasses a organizações não-governamentais e nos empréstimos do BNDES, tenha se dado com os contratos de publicidade. Além do próprio escândalo envolvendo os contratos da Caixa, entre 2011 e 2014 a prática foi decorrente nos contatos de publicidade do Ministério da Saúde.



Dilma, não por acaso, quebrou todos os recordes de gastos com propaganda oficial. Apenas para ter uma ideia: em seus últimos três anos de mandato (não há dados sobre 1999), corrigida a inflação, FHC gastou R$ 4,1 bilhões com publicidade oficial. Lula aumentou a dose para R$ 7,3 bilhões em seu último mandato. Dilma explodiu tudo que pode. Torrou R$ 9 bilhões em seus primeiros quatro anos. O valor é mais que o dobro do que gastou FHC. Nenhum outro partido em toda nossa história havia usado a máquina pública para fazer tanta propaganda e moldar a opinião pública.



O dinheiro inundou diversas redações de jornais e emissoras de televisão. E criou uma nova mídia online, engajada na defesa do governo.



Só entre 2010 e 2013, como publicamos nessa reportagem, um desses veículos, o blog Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, recebeu R$ 2,48 milhões de publicidade oficial. No mesmo período, Veja.com recebeu R$ 559 mil.



Tomando como base uma tabela de acessos divulgada pelo UOL, fica nítido como os gastos não são proporcionais. Sem qualquer critério técnico, o governo passou anos gastando com publicidade oficial em blogs engajados em duas coisas – defendê-lo a qualquer custo e espalhar boatos sobre seus adversários.


Em 2013, o Conversa Afiada teve 4 milhões de visualizações mensais e recebeu R$ 628,8 mil em publicidade do governo. O site da Folha de São Paulo, que tem 127 milhões de visualizações, recebeu pouco mais de R$ 780 mil. Dessa forma, é possível afirmar que, para cada leitor do blog de Paulo Henrique Amorim, o governo gastou R$ 0,01 em publicidade enquanto que, para cada leitor da Folha, o gasto foi de R$ 0,0005 – cinco centésimos de centavo. Ou seja, o Conversa Afiada recebeu proporcionalmente 2000% mais verbas em publicidade oficial do que a versão online do maior jornal em circulação no Brasil. 


Outro caso chocante é o do Ópera Mundi: R$ 573 mil para uma audiência de 514 mil visualizações de página/mês. São R$ 0,09 por cada pessoa que visualizou uma página do site, independente dela ter clicado na propaganda ou não.



Uma das primeiras ações do novo presidente empossado, não por acaso, foi cortar todos esses anúncios. A imprensa semi-oficial voltou à marginalidade.


4. Porque o PT falsifica a realidade como ninguém.



Por muito tempo, o PT construiu uma realidade paralela onde o país alcançou um grau de desenvolvimento que nunca teve. Para conquistar os votos necessários para a manutenção do controle da máquina pública, o partido fingiu transformar um país miserável num lugar de dignidade, especialmente aos mais pobres. Só havia um problema pela frente: a realidade. Longe do marketing político, após mais de uma década com o PT no posto máximo do país, o Brasil permanece onde sempre esteve – ainda miseravelmente pobre, sujo e ignorante.


Talvez você não saiba disso, mas há mais de 25 milhões de brasileiros (uma Austrália) vivendo com uma renda domiciliar per capita inferior à linha de pobreza, e mais de 8 milhões (uma Suíça) vivendo abaixo da linha de extrema pobreza (ou seja, na indigência). Mais da metade das casas brasileiras vivem com até um salário mínimo. E pobreza está longe de ser o nosso único problema.


Nós ainda somos um país terrivelmente ignorante. Segundo o IBGE, 39,5% das pessoas aptas a trabalhar no Brasil não possuem sequer o ensino fundamental e mais de 13 milhões de brasileiros são incapazes de ler um texto como esse pela única razão de serem analfabetos – e se você não faz ideia do que esse número significa, imagine que se somarmos a população do Uruguai, da Nova Zelândia e da Irlanda não alcançaremos a quantidade de analfabetos que existem por aqui. É muita gente.


E educação é apenas uma amostra da nossa miséria. Se ela funciona muito longe do que é aceitável, com a saúde o cenário é ainda pior. Num índice elaborado pela Bloomberg que compara a expectativa de vida da população com o gasto em saúde, o Brasil está na última posição no ranking dos sistemas de saúde mais eficientes do mundo. Em geral, a nossa população sobrevive em hospitais públicos caindo aos pedaços, lidando com um número de médicos per capita muito abaixo do ideal, com falta de remédios e recursos.


Também possuímos gargalos de terceiro mundo no saneamento básico. Segundo dados do Ministério das Cidades, mais de 35 milhões de brasileiros não possuem acesso sequer ao abastecimento de água tratada. É como se houvesse um Canadá inteiro sem uma mísera torneira jorrando água dentro de casa. De acordo com o relatório, quase 100 milhões de brasileiros não possuem acesso nem à coleta de esgoto – e do esgoto coletado, apenas 40% é tratado. 



Enquanto você lê esse texto, imagine que 17 milhões de brasileiros (uma Holanda) não têm acesso à coleta de lixo (e nunca é demais lembrar que cada brasileiro produz, em média, 1 quilo de lixo por dia) e outras 4 milhões de pessoas (uma Croácia) não possuem sequer um banheiro em casa. Já imaginou? Você não verá isso na propaganda oficial, mas o fato é que a gente vive no caos do cocô.



E se a infraestrutura micro é inoperante, a macro é praticamente inexistente. No índice que mede a qualidade da infraestrutura de um país, organizado pelo Fórum Econômico Mundial, nós ocupamos o vergonhoso 120º lugar em 144 posições possíveis, atrás de países como Etiópia, Suazilândia, Uganda, Camboja e Tanzânia. Só pra você ter uma ideia, dos 29.165 quilômetros de malha ferroviária que o Brasil possui, apenas um terço é produtivo. Passados quase dois séculos, o número é equivalente ao período do Império no Brasil.



O resultado inevitável disso tudo? Pobreza e baixa qualidade de vida. Hoje quatro trabalhadores brasileiros são necessários para atingir a mesma produtividade de um trabalhador norte-americano (em 1980, um brasileiro tinha produtividade equivalente a 40% da de um americano; hoje, ela está em 24%). Há dez anos, em média, ganhávamos 50% a mais que os chineses – hoje ganhamos 20% a menos.



E isso para não falar de segurança pública. Em 2014, nós registramos o maior número de assassinatos da nossa história: foram 59.627 homicídios. Visto de outra perspectiva, o crime mata mais no Brasil do que a guerra entre Israel e Palestina, e outros confrontos bélicos ao redor do mundo. Segundo o Atlas da Violência 2016, do IPEA, nós detemos o título mundial de assassinatos no planeta.



Não é pouca coisa. A taxa de homicídios por aqui é quase três vezes maior daquela que a ONU classifica como ‘epidêmica’. Ou seja, nós estamos muito abaixo daquilo que já é considerado inaceitável.



O fato é que durante o período em que o petismo se estabeleceu no Brasil, fingindo transformar o país como nunca antes na história, nós crescemos menos do que a média do continente latino americano e dos países pobres e emergentes ao redor do mundo. Ou seja: se nós conseguimos melhorar nossa condição na última década, não foi através de um milagre realizado pelo governo federal, mas porque o mundo viveu durante esses anos um período especial de desenvolvimento. Apesar do PT. Ainda que engolidos pela propaganda oficial, o que nós demostramos nos últimos anos, pelo contrário, foi uma capacidade inacreditável de não aproveitarmos o momento como deveríamos.



Em geral, passado tanto tempo, tudo que o Estado tem a oferecer ainda são serviços públicos precários: educação, saúde e segurança de países africanos em guerra. Nós continuamos morando num país miserável, desigual, sem acesso a saneamento básico e com uma infraestrutura de quinta. O mundo real é muito longe da propaganda oficial. E as pessoas acordaram para isso.


5. Porque o PT divide a população brasileira como ninguém.




Por fim, usando toda máquina pública que tinha à disposição, aparelhando movimentos sociais, organizações não-governamentais, formadores de opinião e grandes empresários, o PT intensificou como em nenhum outro momento da história desde a saída traumática de Getúlio Vargas do poder, aquele que era a consequência inevitável de suas escolhas, coerente com seu modus operandi: o populismo.


Ao PT e seus eleitores, a não escolha de seus candidatos nunca foi encarada como parte de um processo democrático, mas algo que sempre expôs uma mentalidade atrasada de parte da população, um atestado de elitismo moral, como se a escolha por uma oposição ao partido fosse necessariamente um grito contra os mais pobres.


Foi exatamente dessa forma que o atual governo sustentou o poder. Fracionando, separando, partindo ao meio, dividindo. Para o petismo, sempre houve dois caminhos muito claros a seguir, como se todos fôssemos estrelas de uma grande história em quadrinhos.


De um lado, os vilões típicos: os coxinhas, a elite branca, gente sectária e ignorante que não gosta de ver gente pobre crescendo na vida.


Do outro, os super-heróis de capa vermelha: os grandes líderes do partido, o mito de suas cores e suas bandeiras, e a burocracia oficial, construída com o único objetivo de defender os interesses dos mais pobres contra as tratativas malignas dos mais ricos – ainda que toda esse elite desse sustentação ao seu governo.


Essas são as bases do populismo. A narrativa é pobre, de folhetim barato – e isso fica visível quando o país consegue alcançar uma distância histórica do acontecimento. Mas num primeiro momento, o resultado inevitável é embriagar uma população que por décadas sofreu com a ausência de políticas públicas responsáveis. Para fazer crer que essa população, que sempre gera a maior parte dos votos nas eleições, era protagonista do governo, o PT criou aquilo que ele mesmo acusa – o tal clima de ódio.


Você se lembra da última eleição? Ele estava lá o tempo todo. Aécio era um filhinho de papai, machista, que cheirava cocaína, batia na mulher, arriscava retirar direitos sociais, defendia que os jovens estivessem na cadeia ao invés das escolas, ameaçava a democracia, defendia a escravidão, o genocídio da juventude negra e pregava ódio contra os nordestinos. Marina Silva não deixava por menos – era uma serviçal dos interesses dos banqueiros, tinha desvio de caráter, ameaçava tirar comida da mesa dos mais pobres e acabar com os programas sociais, era simpática à ditadura militar e cumpria um script que logo a transformaria numa versão feminina de Fernando Collor.


Na última década, o partido também não mediu esforços para usar toda máquina que tinha à disposição para difamar formadores de opinião críticos ao governo e perseguir emissoras que dessem espaço a eles, ameaçando cortes na publicidade oficial – como se ela não estivesse presa a critérios técnicos, mas a interesses político-partidários.


Criar uma cultura de ódio contra tudo aquilo que ameaçasse o petismo assumiu o tom do país nos últimos anos, e quem passasse pelo seu caminho era logo taxado de anti-povo e inimigo dos mais pobres (mesmo Marina, uma ex-seringueira e empregada doméstica, criada no interior do Acre por uma família humilde e que aprendeu a ler e escrever aos 16 anos).


E isso nunca deixou de ser assumido pelo partido. Pelo contrário. Rui Costa, o atual governador petista da Bahia, à época da eleição disse que “o antipetismo é a insatisfação da classe média”. Para ele, naquele tempo o Brasil estava “vivendo um segundo período de fim da escravidão”, com a derrota de “pessoas [que] veem como um absurdo o porteiro chegar de carro ao trabalho e se incomodam ao ficar atrás de um agricultor ou uma empregada doméstica em uma fila de aeroporto; acham que pobre não pode ter carro, não pode andar de avião, não pode entrar em uma universidade”. 


Como política é essencialmente identidade de grupo, toda essa lenga-lenga pegou. Afinal, quem se importa com propostas quando a discussão está presa a questões morais como a luta do bem contra o mal?


A essa altura, surpreende o cinismo com que o partido encara a rejeição que possui. Após aparelhar cada palmo da sociedade civil brasileira, levando a economia a um cenário caótico, o PT gastou uma década tratando parte considerável do país como um esgoto moral a céu aberto.


O ódio foi a ação. 


A intolerância ao partido é a reação inevitável.

As 4 mentiras mais contadas pelos petistas sobre o governo Lula


Muito antes dos grampos da Operação Lava Jato exporem parte daquilo que o ex-presidente Lula realmente diz em privado sobre outros políticos e instituições, outros surtos de sinceridade já ajudaram a compreender o ex-presidente muito além dos discursos e palanques. 


Em um destes momentos, reunido com blogueiros pró-governo, em abril de 2014, Lula explica com certa clareza, como mentir e inventar estatísticas sobre os governos aos quais se opunha era parte natural do seu trabalho enquanto oposição. Sobre o próprio governo, porém, um olhar mais atento mostra que, se não chegou a mentir, Lula não teve em momento algum receio de contar meias-verdades ou apropriar-se de feitos não necessariamente seus.


Muito além de criar números inexistentes, como a alegação de que durante seu mandato 36 milhões de brasileiros saíram da extrema pobreza (número contestado pelo próprio Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Palácio do Planalto, que alega terem sido 8,4 milhões), o ex-presidente viu as estatísticas de seu governo variarem ao sabor do vento, tudo de acordo com os caprichos dos discursos políticos.




A prática não é exclusividade do governo de Lula. Em 2014, a FAO, organização da ONU para a agricultura, mudou sua metodologia para medir a fome, e como num passe de mágica, as pessoas que passam fome no Brasil caíram de 7% para 1,4%. Pela primeira vez na história, o Brasil saiu do “mapa da fome”.  A FAO é comandada atualmente por José Graziano, ex-ministro de Lula e responsável por criar o “Fome Zero”.


Em outro caso, envolvendo apenas organizações tupiniquins, o IBGE alterou a metodologia do PIB, tornando a recessão de 2014 um ‘crescimento zero’, evitando, ao menos por enquanto, que o Brasil tenha pela primeira vez na história 3 anos de crescimento negativo. Por fim, no mais conhecido dos casos, o mesmo IPEA determinou que brasileiros com renda per capita de R$ 291 pertenceriam à classe média.


Mas manipular números não é o bastante. Aqui, separamos as 4 mentiras mais contadas sobre o governo Lula.

1. Nenhum país do mundo fez o que o Brasil fez na área econômica e social.


O bom desempenho da economia brasileira ao longo da primeira década dos anos 2000 é ainda hoje a conquista mais comemorada por qualquer um que busque exaltar o governo Lula. Não à toa, os bons números da economia representam a pedra angular que explica o crescimento de programas do governo voltados para a área social. Graças a um aumento recorde de arrecadação (que mais do que dobrou entre 2002 e 2010), o governo pode estar presente no cotidiano de dezenas de milhões de pessoas.


A conjuntura onde este crescimento se deu, porém, foi daqueles fatos raros, poucas vezes presenciados na história brasileira. Para ser mais exato, apenas em 1902, no grande ciclo internacional da borracha, tivemos um país saído de ajustes internos no exato momento em que a principal especialidade brasileira (as commodities, em especial as agrícolas), começaram a subir de preço. Para o Goldman Sachs, o aumento médio das commodities durante o período foi de 723%.


Vender o mesmo produto por quase 7 vezes mais foi uma das causas desta riqueza em abundância.
Entre 2002 e 2010, cerca de US$ 252 bilhões em superávits comerciais entraram na economia brasileira, inundando o país de riqueza.


O comércio, claro, não explica todo sucesso brasileiro no período. Atualmente, a economia brasileira é a mais fechada dentre todas as 20 maiores economias do mundo, demonstrando que apesar de termos crescido, poderíamos ter feito mais. Boa parte da sensação de crescimento existente no país esteve assentada no aumento do crédito, que subiu de 23% para 46% do PIB, como consequência da primeira estabilidade da moeda brasileira desde… 1902.


Se compararmos a outros países, porém, o sucesso brasileiro não foi tão expressivo. Crescemos mais do que nós mesmos, é verdade, mas ainda assim, fomos o penúltimo colocado no continente, à frente apenas do México.


Segundo o FMI, em 2002, o PIB brasileiro equivalia a 3,2% do PIB mundial, já em 2010, esta participação era de 3,18%. Em 2015 este número está em 2,84%, demonstrando que crescemos significativamente menos que o restante do mundo, de modo que não apenas outros países “fizeram o que o Brasil fez”, como fizeram ainda mais.


No campo social não é diferente. Segundo o IPEA, a pobreza no Brasil caiu significativamente, mas o começo desta queda não foi exatamente a eleição do ex-presidente Lula. Para o IPEA, o começo da queda da pobreza no Brasil foi a criação do Plano Real e o fim da inflação. Em 1992, haviam 19,1 milhões de pessoas extremamente pobres no Brasil, contra 14,9 milhões em 2002 e 6,5 milhões em 2012. Para o instituto, além do fim da inflação, o aumento do nível de emprego foi outro fator preponderante para a queda. Programas sociais representam apenas 15% desta queda, contra mais de 2/3 de aumento da renda do trabalho.


Os números brasileiros são positivos, mas nada que se distancie do restante dos países. Entre 1990 e 2015, a pobreza caiu 50% no mundo, e mais de 60% nos países emergentes. Os países responsáveis por puxar a queda são justamente alguns dos mais populosos. Para o Banco Mundial, 2035 representará o ano histórico em que a extrema pobreza (pessoas com renda menor do que 1 dólar por dia), será extinta, ainda que Lula não seja presidente do mundo.

2. O Brasil pagou a dívida externa.


Assistindo dez calotes na dívida entre 1898 e 1990 (o último), não é de se estranhar que o brasileiro associe dívida externa à fragilidade e problemas. Para boa parte do mundo, no entanto, dívida é uma forma de alavancar investimentos. Ao realizar a aquisição da cerverja SAB Miller, os brasileiros donos da AMBEV, liderados por Jorge Paulo Lemann, recorreram a um empréstimo de US$ 47 bilhões, pagando juros de 4,25%. O número é expressivo, a segunda maior captação de dívida já realizada por uma empresa no mundo, significando um valor maior do que a atual dívida externa brasileira a um custo mais baixo.


Como o exemplo da AB Inbev, a empresa controladora da Ambev, deixa claro, dívida pode vir a ser uma solução, para aqueles que possuam boas qualificações para tomar crédito, e utilizem os recursos de forma eficiente. Ao atrair o grau de investimento em 2008, a economia brasileira viu um boom de endividamento por parte das empresas. Para companhias como a Globo, a companhia aérea Gol ou o frigorífico JBS, a oportunidade de captar dinheiro no exterior fez com que financiar as suas operações se tornasse extremamente mais barato.


Para o governo, porém, aumentar o endividamento não pareceu uma boa ideia. Entre 2002 e 2010 o governo brasileiro procedeu no sentido contrário, vendendo títulos da dívida interna, aquela paga em reais, com juros que hoje giram em torno de 14,25%, para pagar a dívida externa, cujos juros ficam em torno de 4%. Para o governo, realizar esta operação significou “menos turbulências”, uma vez que a dívida externa não está sujeita à variação do dólar. O efeito político, porém, foi notório.


Composta por inúmeros credores, a dívida externa brasileira foi por muito tempo associada a um único deles: o FMI. A razão para isso é clara. Como não possui bom histórico de crédito, apenas uma entidade se dispôs por um bom tempo a emprestar quantias consideráveis ao Brasil – o próprio FMI. Isto ocorre porque a entidade é financiada por outros governos, e empresta com o intuito de influenciar a adoção de políticas comuns aos países como exigência aos empréstimos.


O ato político de Palocci, então Ministro da Fazenda, representou o pagamento da dívida relativa apenas ao FMI, de US$ 15 bilhões, com recursos oriundos da criação de uma dívida ainda mais cara, a interna. Para a população em geral, o que contou foi livrar-se do “grande credor”. Em nenhum momento do seu anúncio, porém, Palocci mencionou ter conseguido os recursos por meio de outras dívidas.


Atualmente, a dívida externa pública gira em torno de 10% da dívida externa total, e meros 5% da dívida do governo. O endividamento total do governo por sua vez, está em R$ 3,6 trilhões, implicando em juros superiores a R$ 600 bilhões anuais.


Com reservas internacionais de US$ 374 bilhões, o governo tornou-se o que se chama de “credor líquido’ – ou seja, possui mais caixa do que dívida. O chamado ‘custo de carregamento’ das reservas – o custo de pagar a dívida que garantiu os recursos para comprar estes US$ 374 bilhões – é estimado em R$ 120 bilhões mensais. Imagine que você tenha pago o crédito consignado com o cartão de crédito e ainda faça propaganda de que “livrou-se das dívidas”. Com o governo, a situação não mudou muito.

3. O Brasil se tornou auto-suficiente na produção de Petróleo.

O boom do petróleo, cujo preço do barril saltou incríveis 1.200% ao longo da década de 2000, fez explodir ao redor do mundo regimes financiados pelos ‘petrodólares’. Do Oriente Médio à America Latina, governos enriquecidos com o dinheiro do petróleo fizeram as mais absurdas aquisições, como uma Copa do Mundo no Qatar ou a força aérea mais moderna do continente, detida pela Venezuela.


Para o Brasil, que chegou a ter uma das 10 maiores empresas do mundo, o efeito foi também expressivo, apesar da Petrobras não representar na economia brasileira o que representa o petróleo nestes outros países (por aqui, a cadeia de prestadores de serviços da Petrobras esta em 20% do PIB).
Em torno desta festa de dólares, não é de se estranhar que tenham nascido inúmeros mitos. Poucos deles, no entanto, chegam perto do que foi o anúncio da “auto-suficiência”. Para uma população acostumada a acreditar que comércio exterior é algo que ‘não é para o Brasil’, a ideia de que dependemos menos do resto do mundo cai como uma luva.


Só há um problema com esta ideia: ela é falsa, do início ao fim.


Entre 1953 e 1997, produzir petróleo no Brasil era uma exclusividade da Petrobras. O monopólio do petróleo, criado por Getúlio Vargas, garantiu que nenhuma empresa nacional ou estrangeira pudesse investir para produzir por aqui. Como consequência de um país não acostumado a poupar, nossa produção interna mal supria metade das necessidades.


A consequência do aumento do preço do barril e da permissão para investimento privado não poderia ter consequências diferentes. Entre 1997 e 2010, a produção de petróleo no Brasil saltou de 741 mil para 2,271 milhões (estamos estagnados desde então). Por volta de 2005, em termos puramente numéricos, a produção e o consumo se igualaram, motivo que levou o governo a comemorar a ‘auto-suficiência’.


Do ponto de vista técnico ou econômico, consumo e produção nunca se encontraram por aqui. O Brasil ainda hoje continua produzindo óleo pesado e importando óleo leve, uma vez que nossas refinarias foram construídas em uma época na qual importar óleo leve do Oriente Médio era muito mais barato e eficiente do que produzir o óleo pesado existente por aqui.


O déficit na ‘conta petróleo’ atingiu US$ 20,3 bilhões em 2013, e US$ 5,6 bilhões em 2015. Na prática, continuamos importando mais do que exportando.

4. O Brasil foi o último a entrar e o primeiro a sair da crise.


Muito mais do que o próprio sucesso, o aparente fracasso da economia americana foi a pá de cal que era preciso para sedimentar a idéia de que “enfim, vencemos”. Nós estamos certos, pois continuamos crescendo, enquanto os países ricos afundam em suas crises. Em um misto de anti-americanismo e um revanchismo barato, o Brasil viveu uma onda de ufanismo das mais curiosas.



Uma análise da crise de 2008, a crise do ‘subprime’, no mercado imobiliário americano que se alastrou pelo mundo, mostra que há pouco ou nenhum paralelo com a maior parte das crises já enfrentadas pelo Brasil. Trata-se da maior crise do capitalismo desde 1929, e desta vez, nossa economia não sofreu um abalo tão grande. Em 1930 e 1931, o Brasil registrou pela primeira vez uma queda de 2 anos seguidos no seu PIB – e isto porque a crise de 1929 fez desabar os preços do café, nossa commoditie na época. Desta vez, porém, a crise não impactou nos preços de mercadorias comumente vendidas pelo Brasil, uma vez que o grande consumidor, a China, continuava a crescer.



A crise de 2008 foi especificamente uma crise originada pelo sofisticado sistema financeiro internacional, um clube no qual o Brasil, até o mesmo ano de 2008, não estava autorizado a participar. Sem o grau de investimento, nossa participação junto ao sistema financeiro internacional era pouca ou quase nula. Nenhum banco brasileiro comprou em escala significativa os CDO (obrigações de crédito colateralizada, traduzida por aqui como “derivativos”). Nenhum banco brasileiro quebrou ou sofreu grandes prejuízos com a crise.



Para algumas empresas, porém, a situação foi um pouco diferente. Perdigão e Aracruz tiveram prejuízos bilionários com os derivativos e tiveram de ser vendidas para dar origem a outras empresas. Nada muito relevante.



Nossa pouca participação no epicentro da crise, de fato nos garantiu ser um dos últimos a entrar. O motivo de termos “saído” em 2010 é a causa mal explicada na história. Em 2008, demos início à chamada “política dos campeões nacionais”. Cerca de R$ 450 bilhões foram injetados no BNDES para financiar grandes obras, e o governo se tornou um personagem mais presente na economia. 



O crédito por parte de bancos públicos chegou a 52% do total. E se tudo isso lhe parece conhecido, é porque provavelmente você já deve ter visto estas medidas em uma análise do que é a “Nova Matriz Econômica”. A aposta no crédito para induzir o crescimento na economia nasceu justamente como resposta “anti-cíclica” à crise. Saímos da crise utilizando capacidade ociosa para gerar consumo e um aparente clima de crescimento.



O PIB de 2010, porém, que chegou a 7,2% de crescimento, não tardou a diminuir. Entre 2011 e 2014, registramos dia após dia uma queda no nível de crescimento, até chegar a zero em 2014, e então os -3,8% de 2015. Em suma, nós saímos da crise americana criando a nossa própria crise.

10 vezes em que o politicamente correto passou de todos os limites em 2016


Se você nunca viu pessoalmente, certamente já ouviu falar pelo menos alguma vez a respeito. Eles entopem as redes sociais diariamente com um vocabulário padronizado, repetindo lugares comuns e clichês anti-científicos, preocupados com microagressões, lugares de fala e discussões pseudosociológicas, com uma alta carga de imposição de sugestionabilidade às suas ideias e um senso de superioridade moral irrefreável. Sim, estou falando dos internacionalmente conhecidos social justice warriors (SJW), que aqui no Brasil você provavelmente conhece como guerreiros da justiça social.


Atuando com uma perspectiva caricata do progressismo, de forma destemperada e imatura, os justiceiros sociais constantemente ridicularizam discussões sérias sobre problemas reais – como o racismo, o machismo e a homofobia – ao transformá-las em discussões rasteiras, com um puritanismo histriônico e apelos emocionais sem qualquer razoabilidade. Ao exagerar, incapazes de acolher qualquer crítica e preparados para apontar o dedo à mínima possibilidade de oposição, mais afastam do que aproximam as pessoas das pautas que julgam defender, não raramente servindo de palanque para políticos com bandeiras absolutamente opostas, transformando debates importantes em meros problemas de classe média – e criando conceitos esdrúxulos de livre expressão, categorizando quem pode falar a respeito do quê.



O efeito imediato? A criação de um constante clima policialesco politicamente correto que invade diferentes áreas da atividade humana, fazendo com que tudo seja encarado de forma entediantemente ofensiva. Quer alguns exemplos? Fiz uma lista de situações em que o politicamente correto passou dos limites nos últimos meses. Tem outros exemplos pra lembrar? Seu lugar de fala está garantido na seção de comentários logo abaixo.

1. O vilão que só pode agredir personagens masculinos.

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Eu poderia apostar que você leu essa notícia recentemente. Nem Apocalipse, um dos maiores vilões da história das histórias em quadrinho, com mais de cinco mil anos de idade, que já foi considerado deus por muitas civilizações, possui uma ampla gama de poderes, é imortal, um dos seres mais inteligentes do universo, já derrotou o Conde Drácula (duas vezes!) e é uma das figuras mais temidas do universo Marvel, conseguiu escapar das garras do politicamente correto. E tudo isso por conta de um cartaz onde o vilão asfixiava a personagem Mística, interpretada por Jennifer Lawrence, no último filme da franquia “X-Men”.


O burburinho começou pelas redes sociais. E então se potencializou quando a atriz Rose McGowan decidiu criticar a produção:
“F***-se essa merda. Há um imenso problema quando as pessoas da 20th Century Fox acham que violência contra mulher é a melhor forma de divulgar um filme.”
Pois é. Toda maldade de uma das figuras mais vilanescas da série virou uma mera questão de machismo. E o que a Fox, a responsável pelo filme, fez? Pediu desculpas, claro.
“Em nosso entusiasmo para mostrar a maldade do personagem Apocalipse, não percebemos de imediato a conotação perturbadora desta imagem”, disse o estúdio num comunicado divulgado nos Estados Unidos. “Assim que percebemos o quão indelicada ela era, rapidamente tomamos medidas para remover todo o material. Pedimos desculpas pelas nossas ações e nunca apoiaríamos a violência contra as mulheres.”
Apocalipse atravessou cinco mil anos de história para ser finalmente derrotado pelos justiceiros sociais.

2. O casal interracial racista.



Se nem as figuras mais temíveis dos quadrinhos conseguem escapar do politicamente correto, quem dirá a indústria da moda. Constantemente alvo de críticas, modelos, estilistas, donos de agência e publicitários são figuras carimbadas no universo dos justiceiros sociais. E na nova campanha da Versace, uma das maiores grifes do mundo, o combate se repetiu.


Repare na imagem acima. O que você consegue visualizar? Na peça, uma mãe branca e loira (a modelo Gigi Hadid, de 21 anos), caminha tranquilamente pelos bairros de uma cidade qualquer com seus dois filhos, negros, e seu marido, igualmente negro. Eis uma peça de publicidade inclusiva, onde pessoas de etnias diferentes formam uma família moderna, sem preconceitos – você deve estar pensando, certo? Repare novamente. A imagem causou comoção nas redes sociais (sempre elas!). E o motivo? Racismo.
“Por favor, retirem esse anúncio da Versace, é constrangedor. O anúncio inteiro é focado na mãe de pele clara. Tanto as crianças como o pai olham para ela impressionados. As minorias são pouco representadas na indústria e, quando em comerciais, elas são quase SEMPRE retratadas na sombra de uma modelo de pele clara”, disse uma usuária do Instagram.
Outro usuário comentou: 
“Por que há uma corrente em torno da menina negra que claramente não se mistura nessa foto bizarra?”
Talvez porque a personagem em questão seja um bebê, que está num carrinho de bebê, com um cinto de segurança de plástico para bebês? Será possível?


E não pense que os personagens foram os únicos problemas vistos como racistas na campanha. Há algo equivocado também com o background. Para os justiceiros sociais, a escolha do cenário, Chicago, não foi vista com bons olhos. E a razão: o fato da cidade sofrer uma onda de violência que afeta, de modo especial, a população negra.


Pensem nisso quando produzirem alguma peça no Rio de Janeiro, publicitários. Vocês podem ser acusados de racismo também.

3. O super herói que é viril demais.

Ele é o Capitão América, um símbolo dos militares americanos e um dos maiores super heróis de todos os tempos. Foi construído para derrotar alguns dos vilões mais temíveis do eixo do mal graças a um soro que lhe torna quase indestrutível ao lhe permitir atingir o ápice do condicionamento físico humano. Mas até ele possui um ponto fraco: sua virilidade heterossexual. Essa é, ao menos, a opinião da colunista Joanna Robinson, da revista americana Vanity Fair.


Joanna diz que saiu desapontada com o terceiro filme da saga do super herói, Guerra Civil, lançado em maio nos cinemas americanos. O motivo? Uma cena em que o Capitão se torna nostálgico ao relembrar suas corridas atrás de rabos de saia com seu melhor amigo, “Bucky” Barnes. Para a colunista, os diretores entregam evidências demais de que não há um relacionamento gay entre os amigos. E isso é um erro.

“É um momento doce e humano que os conecta, mas também é regado de virilidade heterossexual. Se a Disney não está inclinada a dar ao público um herói gay, ela não poderia pelo menos ter deixado para nós o sonho de Bucky com o Capitão?

O filme Capitão América: Guerra Civil não saiu da linha quando “definiu” o relacionamento de Bucky e Steve quando o Capitão dá um beijo em Sharon Carter (Emily VanCamp), enquanto Bucky olha de forma positiva para os dois? Onde está o espaço para a interpretação nesse momento?”

Sem qualquer passado gay, nem qualquer indício disso, nos cinemas ou nas histórias em quadrinhos, nem o Capitão América consegue escapar do fato que até a sua virilidade pode ser politicamente incorreta.

4. Os estudantes que protestam contra as aulas de inglês porque há muitos poetas homens e brancos na língua inglesa.

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Na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, estudantes de inglês enviaram uma petição ao departamento do curso. O pedido é categórico: querem a retirada do estudo dos “grandes poetas ingleses” nas matérias introdutórias que servem de pré-requisito para outras disciplinas. A razão? O fato de que eles são escritores brancos do sexo masculino.

“É inaceitável que um estudante de Yale que queira introduzir-se na literatura inglesa deva ler apenas autores brancos do sexo masculino”, diz a petição.

Em Yale, os alunos têm de estudar Geoffrey Chaucer, Edmund Spenser, William Shakespeare e John Donne no semestre do outono e, então, John Milton, Alexander Pope, William Wordsworth e TS Eliot, no semestre da primavera. De acordo com o texto, priorizar esses escritores cria uma cultura “especialmente hostil aos estudantes de cor”. Com essa escolha, apontam os alunos, a universidade não prepara seus estudantes para fazerem estudos “de alto nível relativos à raça, sexo, sexualidade, etnia, nacionalidade”.


Um das figuras por trás do protesto é Adriana Miele, uma estudante que em abril escreveu um artigo de opinião onde criticava o curso porque nele os estudantes “são ensinados a analisar obras literárias canônicas”, mas “não são ensinados a questionar por que é que são canônicas, ou as implicações das obras canônicas que oprimem e marginalizam as pessoas não-brancas, mulheres, trans e gay”. Para ela, “é possível tirar uma licenciatura em língua inglesa apenas lendo autores homens e brancos. Muitos estudantes não leem uma única autora mulher em duas disciplinas fundamentais do curso”.


Catherine Nicholson, a professora responsável por ensinar a matéria dos “grandes poetas ingleses”, elogiou o questionamento dos alunos, mas defendeu que a disciplina em si, pelo conhecimento que carrega, não é uma ferramenta de exclusão, mas um exercício de “resistência e libertação”.


Na petição, que segundo o Yale Daily News até o final de maio já contava com 160 assinaturas (num universo de 200 estudantes), os alunos pedem para “que os grandes poetas ingleses sejam abolidos” do curso.


Quase cinco séculos depois de ter revolucionado a literatura ocidental, nem William Shakespeare escapa dos justiceiros sociais.

5. O país que quer mudar a letra do hino para um gênero neutro.


Desde o ano passado, quando assumiu o cargo de primeiro-ministro no Canadá, Justin Trudeau vem se tornando o mais novo ídolo dos justiceiros sociais ao redor do mundo. E não sem razão. Traudeau é uma espécie de Mujica canadense que conquistou parte do eleitorado de seu país com bandeiras que incluem a legalização da maconha, mais impostos para os ricos e uma nova relação com os índios.


Mas não pense que isso tudo é o bastante. Agora o seu partido tem outra tarefa em mente: neutralizar o gênero no hino nacional.


Há poucos dias, a esmagadora maioria do parlamento canadense (279-79) decidiu votar a favor de neutralizar o gênero na letra do hino do país, substituindo a linha “True patriot love in all thy sons command” (“Verdadeiro amor patriota, em vossos filhos comanda”) por “all of us command” (“em todos nós comanda”).


Uma proposta semelhante já havia sido apresentada em 2010, mas foi rejeitada pelos conservadores, que detinham a maioria no Parlamento.


Para o progressista Mauril Bélanger, que apresentou o projeto de lei há poucos meses, a alteração é significativa.
“Na véspera do 150º aniversário da nossa federação, é importante que um de nossos símbolos nacionais mais reconhecidos e apreciados reflita os progressos realizados pelo nosso país em termos de igualdade de gênero.”

A medida é uma vitória para os justiceiros sociais, acostumados a apontar problemas típicos de classe média com soluções pretensiosas que fingem mudar o mundo.

6. A brasileira que foi assaltada, levou um tiro e pediu desculpa aos bandidos porque eles “são vítimas” também.

Ela se chama Mariana Däffner. É brasileira, tem 22 anos e é esgrimista, atleta do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Há poucos dias, ao estacionar o carro da família nos arredores do bairro Menino Deus, em Porto Alegre, Mariana foi acometida por um desses problemas que afetam milhares de brasileiros todos os anos, entregues ao completo abandono da segurança pública no país: um assalto.
“Eles pediram pela chave do carro e eu entrei em pânico. Não sabia o que fazer, congelei. Comecei a procurar pela chave nos bolsos, mas não a encontrava. Eles estavam armados e me ameaçavam, diziam para eu não gritar. Eu não achava a chave para entregar e comecei a gritar. Nesse momento, eles procuraram a chave, não a acharam, levaram meu celular e foram embora. Na fuga, um dos caras atirou. O tiro atravessou o meu braço e passou de raspão na minha barriga. Gritei por socorro, algumas pessoas vieram me socorrer e encontraram a chave. Estava no porta-malas mesmo.”

Após passar por duas cirurgias, colocar uma haste e dez parafusos no braço, e lidar com o trauma de ver a sua vida no absoluto controle de alguns assaltantes, Mariana concedeu uma entrevista ao Zero Hora.


“Qual a sensação que fica desse episódio?


De descrença, de não acreditar que aconteceu comigo. Só me dei conta que havia sido assaltada e levado um tiro quando estava no carro da Brigada Militar e olhei para a minha mão. Tento não pensar na questão da criminalidade, da impotência e da vulnerabilidade que temos como cidadãos. Tento pensar na sorte que tive no meio desse episódio de total azar.


Você diria alguma coisa aos rapazes que lhe assaltaram?

Só consigo pensar em desculpas. Eu sinto muito, porque, infelizmente, o que aconteceu comigo é reflexo da sociedade em que vivemos.


Você gostaria de pedir desculpas a eles?
Sim.

Por quê?
Porque assim como fui vítima, eles são vítimas de tudo que vivemos hoje. É muito frustrante passar por uma situação como essa e ver que as pessoas se colocam nessas posições para sobreviver.


Você não sente raiva, então.
Não.”
E o que mais poderia sentir? No mundo orwelliano construído pelos justiceiros sociais guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força. 

7. Os alunos que pedem uma nota mínima garantida pela universidade para dedicarem mais tempo ao ativismo.


Com tanta coisa pra ajustar no mundo, tantas causas para militar, tantas questões para problematizar, os estudos evidentemente acabam se tornando um grande fardo na vida dos justiceiros sociais. Simplesmente não há tempo. Foi pensando nisso que os estudantes da Oberlin College, uma instituição privada historicamente reconhecida como progressista, estão assinando uma petição para proibir os seus professores de darem notas inferior a C (o equivalente a uma nota entre 6 e 7,9) aos seus alunos. A justificativa? Eles estão se atrapalhando nos estudos porque dedicam muito tempo a participar e organizar protestos. 


A petição já recebeu mais de 1.300 assinaturas até o momento.


Segundo a New Yorker, Oberlin é “o centro da tempestade atual” de ativismo em campus universitários, com os alunos fortemente envolvidos em questões como a diversidade em sala de aula, a desigualdade racial e a injustiça social. 


No final do ano passado, a Black Student Union lançou uma lista de 50 “demandas institucionais” para a universidade, entre elas pagar $ 8,20 por hora para os estudantes negros que organizam protestos. No documento, com 14 páginas, a organização diz que a Oberlin College “funciona nas premissas do imperialismo, da supremacia branca, do capitalismo, do capacitismo e do heteropatriarcado cissexista”.


A educação possui oficialmente uma nova função por lá. E ela definitivamente não é passar conhecimento adiante.

8. O aplicativo (para iPhone, claro) que divide a conta do restaurante pela “dívida histórica”. Homem branco paga mais.


Você já ouviu falar no termo dívida histórica, não? A ideia por trás desse conceito diz que uma população do presente deve pagar pelas injustiças que as populações do passado cometeram. Segundo ela, todos nós estamos inseridos nessa conta. Alguns em dívida, outros em crédito. Como estabelecer um resultado justo? Com ações afirmativas. Cotas, por exemplo. Há décadas elas vêm sendo defendidas através desse conceito.


Mas e se tudo isso ainda for pouco? Há algo que possa ser feito em outras situações banais, do cotidiano? Como, afinal, um justiceiro social pode organizar o seu dia a dia a partir de critérios que equacionem a dívida histórica?


Foi pensando nisso que foi criado o aplicativo Equitable. A ideia é simples: dividir contas de restaurante com base no gênero e nas diferenças salariais raciais das pessoas presentes. Se você é um homem branco e está acompanhado de uma mulher negra, por exemplo, você já deve imaginar as consequências do aplicativo – é melhor preparar o bolso. Equitable fará você pagar mais no final da história. Se você é uma mulher asiática e está acompanhado de um homem, bingo. Você se deu bem. Ele irá pagar a maior parte por isso. O responsável por isso tudo? O racismo e o patriarcado.


De acordo com o site do aplicativo, “Equitable ajuda a evitar a discriminação enraizada que existe em nossa sociedade. Ele não divide a conta igualmente – divide equitativamente. Você paga o que deve para equilibrar as diferenças salariais.”


O aplicativo usa os dados do Bureau of Labor Statistics para calcular quem deve pagar o que no final do jantar, garantindo que aqueles com menos privilégios (leia-se: qualquer pessoa não-branca que não seja do sexo masculino) pague menos para comer.


A comediante americana Luna Malbroux é o cérebro por trás da ideia, que nasceu como piada e venceu o grande prêmio do 2016 Comedy Hack Day in San Francisco. O aplicativo, no entanto, foi levado a sério e desenvolvido – e você consegue baixá-lo na iTunes Store clicando aqui. Ele só serve pra quem tem iPhone, claro!


9. Os fieis católicos que estão proibidos de rezar em voz alta para não ofender refugiados muçulmanos abrigados na igreja.

É uma cidadezinha com pouco mais de vinte mil habitantes. Fica ao noroeste da Itália. Chama-se Ventimiglia. Nos últimos anos, passou a receber em torno de 50 refugiados muçulmanos todos os dias, interessados em atravessar o país para chegar à França, causando uma “situazione insostenibile”, nas palavras do prefeito da cidade. A Caritas, uma organização de caridade católica que se estende por toda Itália, acolhe diversos deles.


“Nós já substituímos o altar com duas camas. Eu acho que essa é a missa mais bonita que esta comunidade pode celebrar nestes dias”, conta o padre Rosario Francolino, de Palermo.


Nas igrejas de Ventimiglia a situação se repete. O cenário, no entanto, causa um incômodo no mínimo curioso. Como aponta a Agenzia Nazionale Stampa Associata, a principal agência de notícias da Itália, um grupo de paroquianos da Igreja de Santo Antônio, uma das nove paróquias da cidade, se surpreendeu quando voluntários da Caritas lhes disseram que não poderiam recitar o rosário em voz alta. O motivo: não causar incômodo aos imigrantes muçulmanos que estão abrigados ali. A situação atingiu o nonsense quando um padre levou fieis que reclamavam da situação para rezarem em outro lugar.

A bizarrice politicamente correta não é completamente nova no continente europeu. No final do ano passado, uma igreja evangélica alemã já havia retirado os bancos, o altar e o púlpito, bem como todos os símbolos que remetiam ao cristianismo, para abrigar refugiados muçulmanos sem ofendê-los. A ideia era fazê-los se sentir ainda “mais bem-vindos na nova casa”.


A próxima etapa? Alguém pensou em converter cristãos em muçulmanos também? Não seria nada muito absurdo frente ao novo cenário envolvendo os refugiados. Tudo para não ofendê-los, evidentemente.

10. Esse estudo que problematiza os problemas de matemática.

Ela se chama Anita Bright. É PHD, tem quase 20 anos de carreira e é membro do corpo docente do Departamento de Currículo e Instrução da Portland State University, nos Estados Unidos. Em abril, ela lançou um estudo, onde problematiza diversos problemas de matemática. Nele, analisa provas sob a ótima dos justiceiros sociais. Curioso pra saber como isso se dá? Saca só. 


“Exemplos de problemas matemáticos relacionados a viagens criam cenários que demandam tempo livre e renda disponível, em geral de uma fonte não-identificada, o que novamente representa a experiência da classe média e a retrata como sendo normal. O problema a seguir (Maletsky, E., 2002, p. 77b) é um exemplo típico:


“Dois estudantes de arte estão visitando Paris. Cada um deles compra uma entrada para o museu por $14. Cada estudante também compra um ingresso para conhecer a Torre Eiffel por $11 e um ingresso para um passeio de barco por $3. Quanto os estudantes gastaram no total? Explique.”
O que pode parecer superficialmente uma visita acessível a Paris é, na verdade, parte de um passeio por uma das cidades mais caras do mundo para turistas (TripAdvisor, 2012). Não há menção às inúmeras despesas adicionais envolvidas neste problemas (como passagem de avião, custo de estadia e refeições). 



Em vez disso, o problema é apresentado como se estudantes de arte passeando por Paris fosse uma situação perfeitamente natural. Apesar das informações que faltam ao contexto, o problema exige que os alunos pensem sobre gasto de dinheiro, incluindo para atividades que, se outro paradigma estivesse em ação, poderiam ser realizadas de graça – como arte. Além disso, não há nenhuma alusão aos impactos ambientais relacionados ao ato de viajar (viagens aéreas e o “passeio de barco” mencionado no problema).”


E não fica apenas nisso. Quer outro problema apontado pelo estudo?

“Muitos outros participantes também identificaram problemas que, sem fazer menção direta, parecem aludir à raça ou maneiras racializadas de conhecimento e existência. Um exemplo comum é representado em problemas que focam em refeições, como este, que pode ser encontrado no livro Algebra 1 (Larson, 2010), com as seguintes instruções e informações:


“Você quer planejar um café-da-manhã nutritivo. É necessário que tenha 500 calorias ou mais. Certifique-se que suas escolhas ofereçam um café-da-manhã razoável. (p.371)


Bagel branco – 195
Cereal, 1 xícara – 102
Suco de maçã, 1 copo – 123
Suco de tomate, 1 copo – 41
Ovo – 75
Leite, 1 xícara – 150”


Em primeiro lugar, a forma como o problema está colocado sugere que um café-da-manhã consiste de opções, e que o leitor tem escolha entre o que selecionar para a refeição. Apesar disto poder ser a realidade para alguns estudantes, há também muitos outros que recebem refeições gratuitas ou com preço reduzido nas escolas e, por isso, não têm escolha no que é servido. 



Além do mais, este café-da-manhã é típico do que é consumido em lares americanos, apesar de, como foi apontado por um participante, ‘as pessoas realmente tomam suco de tomate no café-da-manhã?’ Foi notado que poucas opções parecem ser integrais (com a possível exceção do ovo e talvez do cereal). Em vez disso, a ênfase está em comidas processadas. Além disso, o que é enfatizado no problema não é o conteúdo nutricional, mas as calorias associadas com cada alimento. As instruções, usando as palavras ‘nutritivo’ e ‘razoável’, presumem alguma coletividade, acordos subentendidos do que estes termos devem realmente significar na prática. 



Finalmente, a inclusão de leite (presume-se que seja leite de vaca) na lista de opções para um café-da-manhã ‘nutritivo’ falha em reconhecer o fato de que a maioria da população do planeta (~60%) é intolerante à lactose (Itan, Jones, Ingram, Swallow, & Thomas, 2010), e são os brancos (pessoas de descendência europeia) que primariamente são capazes de digerir leite. Logo, ao considerar quem os autores tinham em mente quando escreveram este item, parece que o público-alvo eram crianças brancas de classe média.”

O mundo está ou não ficando completamente insano, afinal?