segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
Folha de S. Paulo – A guerra acabou / Artigo / Carlos Brickmann
Folha de S. Paulo – A guerra acabou / Artigo / Carlos Brickmann
É preciso pôr fim à propaganda eleitoral e trabalhar
Está difícil perceber, mas a campanha eleitoral já terminou. O PT está na oposição; Bolsonaro é o presidente. Os dois lados fariam bem se, agora, se dedicassem à tarefa que os eleitores lhes indicaram.
Nossa bandeira é um símbolo da pátria e não deve ser banalizada. Não façamos com nossa bandeira o que o futebol fez com nosso hino: de tão repetido, o público já não canta junto, não se emociona, nem sequer faz silêncio.
Campanha é campanha, e os candidatos tentam provar que são gente como a gente. Não são: têm diferenças que nos levam a escolhê-los. O lema "um brasileiro igualzinho a você" não funcionou por esse motivo: se é para escolher alguém igualzinho a mim, voto em mim, e a eleição fica empatada.
Foi bonito ver a esposa de Bolsonaro discursando em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, para os surdos? Sim --emocionante. Mas não é tema para debater dias e dias. Bolsonaro assina documentos com caneta Bic? Não tem importância: importa, isso sim, o conteúdo dos documentos. São medidas boas, corretas? Beleza --assinadas com Bic, Parker ou Montblanc.
Michele tem costureira boa, não gasta com grifes? Seu marido gosta de arroz, feijão e pastel? Eu também --e daí? Isso nada diz sobre sua competência. E alguém acredita que Bolsonaro lave roupa?
A propaganda (de ambos os lados) já encheu. Chega de notícias que surgem só para gerar fotos e manchetes. O governador do Rio, Wilson Witzel, disse que Bolsonaro vai propor lei que iguale terroristas e traficantes e autorize alvejá-los se portarem armas de guerra.
É falso: como terrorismo não está definido em lei, não adianta igualar traficantes a terroristas. Seria preciso antes definir o crime de terrorismo e suas penas. E atirar em quem porta publicamente armas de combate não será a implantação da pena de morte, vedada por nossas leis?
Por melhor que seja o governo Bolsonaro, terá oposição. Faz parte da democracia. O comunismo não deu certo em potências como União Soviética e Alemanha Oriental, mas ainda existe. No Brasil continuará havendo comunismo e comunistas, mesmo que todos os projetos do atual governo deem certo.
Se o caro leitor acha absurda a sobrevivência do comunismo após a queda do Muro de Berlim, lembre-se de que há até hoje adeptos da tese de que d. Sebastião, rei de Portugal derrotado e morto em batalha na África, em 1578, na verdade não morreu e voltará em triunfo para reassumir o trono de Portugal, extinto há 108 anos.
Há um filme, "A Facada no Mito", que lança dúvidas sobre o atentado a Bolsonaro. De quem é o filme? Não se sabe. Qual a produtora? Não se sabe. Há indícios de que um canal de YouTube foi criado só para divulgá-lo. E há quem o recomende.
Um parlamentar quer inserir no ensino público a biografia elogiosa de um torturador, Brilhante Ustra. O que pretende, além de provar que não sabe o que é ensinar sem doutrinar? Eliminar os livros que, a seu ver, inoculam o veneno do comunismo nos estudantes, e trocá-los por outros que fazem a mesma coisa, mas louvando bárbaros do outro lado?
É demais. A guerra acabou. Poupem-nos, senhores políticos. Que nos permitam um tempo de descanso de propaganda eleitoral.
Vamos trabalhar --se houver suficientes empregos. E vamos viver.
O Globo – Bolsonaro é parte da ascensão de direita forte no mundo / artigo/ Merval Pereira
O Globo – Bolsonaro é parte da ascensão de direita forte no mundo / artigo/ Merval Pereira
5/01/2019
O governo Bolsonaro que ora se inicia tem proximidades ideológicas com dois movimentos internacionais que se unem em torno de ideias políticas de direita com pensamento liberal na economia. A emergência de uma direita politicamente forte no mundo, culminando em nossa região coma de Bolsonaro, leva a esquerda a perder força na América do Sul, com metade dos países sendo governados por partidos de direita, revertendo uma situação geopolítica. Há cinco anos, dos 12 países da região, só três eram governados por partidos de centro ou à direita: o Chile, de Sebastián Piñera, o Paraguai, de Federico Franco, e a Colômbia, de Juan Manuel Santos. Hoje, metade da região tem governos de centro ou centro-direita, dominando a vasta maioria da população e do PIB.
Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump e ideólogo de uma direita internacional, projeta um grupo para reunir os partidos de direita ou extrema direita da Europa em torno de discussões políticas comuns. Eduardo Bolsonaro, eleito o deputado federal mais votado da história do país, pretende ser o líder intelectual da direita na região, e está em sintonia com Bannon.
Na América Latina, a Fundação Índigo, ligada ao PSL, fez recentemente uma reunião em Foz do Iguaçu com diversos representantes de partidos de direita ou centro-direita, que pretendem ser um contraponto ao Foro de São Paulo, que reúne a esquerda de vários países, criado em parceria entre Lula e Fidel Castro, e chegou a elegera maioria dos presidentes de países vizinhos. Ao mesmo tempo, a adesão do novo governo brasileiro a uma política externa alinhada aos Estados Unidos leva a uma maior aproximação com Israel. A anunciada decisão de transferira embaixada brasileira para Jerusalém, acompanhando a decisão deTrump, tema ver com o apoio que evangélicos fundamentalistas lá e cá dão aos governos Trump e Bolsonaro.
O pastor Silas Malafaia chegou a afirmar que os evangélicos apoiaram Bolsonaro sobretudo porque ele se comprometeu com o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, o que foi reafirmado por Bolsonaro ao próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que permaneceu no Brasil por cinco dias. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, muito ligado a Netanyahu, foi das autoridades presentes à posse de Bolsonaro. Aluta contra a elite globalista abarca desde aposição deTrump contra a ONU e demais organismos internacionais, a movimentação na Inglaterra para o Brexit, assim como os ataques do presidente da Turquia, Recep Erdogan, e do próprio Orbán contra a União Europeia. A emergência política da direita no mundo está merecendo análises em diversos centros de estudos, e um dos especialistas na área, o professor Jonathan Weiler, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, vê paralelos entre a vitória de Bolso n aro eaascen sã ode líderes populistas de direita que defendem as virtudes do nacionalismo e os perigos do globalismo, entre outras causas não diretamente ligadas aos problemas brasileiros, como o controle da imigração. Governos autoritários de direita surgem em países tão diversos quanto Dinamarca, Áustria, Hungria, Polônia, Guatemala e Peru. O que todos esses líderes têm em comum, diz W ei ler,éa habilidade de convencer muitas pessoasd eque om undoé um lugar perigoso, eque eles são os únicos que podem protegê-las. Oapeloàl ei eàord eme o nacionalismos ã o traços comuns a eles. Weiler divide os cidadãos em três campos de temperamento: os fixos, que têm medo de mudanças; os fluidos, mais abertos a elas, e os mistos, ambivalentes. É nesse ambiente que trabalham os líderes políticos.
O professor da Universidade da Carolina do Norte diz que classificares ses políticos simplesmente de autoritários reduza questão a fenômeno marginal, quando o comportam entoem relaçãoàr aça ei migraçãoé central na formação da opinião pública dos países. Aqui no Brasil, poderíamos fazer uma relação com os valores morais, enfrentamento da violência ou questões de gênero. E coma adesão do novo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, ao movimento anti globalista. Quando as pessoas consideram que o caos está tomando contada sociedade e as ameaças são onipresentes, pondera o professor JonathanW ei ler, tendem afazer vista grossa ao autoritarismo no interesse de impor mais ordem. Sem levarem conta que a democracia é intrinsecamente conturbada. (Amanhã, o movimento evangélico)
Metade da América do Sul tem governos de centro ou centro-direita, dominando a maioria do PIB e da população
O Estado de São Paulo – Embaixador toma posse como número 2 do Itamaraty
Por Lu Aiko Otta
Chanceler Ernesto Araújo nomeou Otávio Brandelli como secretário–geral, que ficará a cargo da máquina do ministério
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deu posse ontem ao embaixador Otávio Brandelli no posto de número 2 da pasta, o de secretário–geral. Trata–se do cargo mais elevado da casa, que é exclusivo dos diplomatas de carreira.
Em seu discurso, Araújo fez uma analogia: o presidente da República seria o arquiteto, o chanceler, o engenheiro, e o secretário–geral, o “mestre de obras” na construção de uma nova política externa para o Brasil. Ele frisou que sua gestão não se limitará a administrar a pasta, mas sim “construir algo”.
Brandelli, por sua vez, abriu seu discurso agradecendo sua “promoção” a mestre de obras. A brincadeira deixou clara a amizade entre os dois. Araújo contou que eles se tornaram amigos quando serviram em Bruxelas, nos anos 90. “Olho para o Otávio e sei o que ele está pensando, qual é o trocadilho”, disse o ministro, sorrindo. Brandelli confirmou, dizendo que a comunicação entre ambos é praticamente “telepática”.
Gaúcho como Brandelli, Araújo terminou seu discurso dizendo que será necessário abrir uma exceção ao lema proclamado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua posse, que a bandeira verde–amarela jamais será pintada de vermelho. “Exceto se for a do Inter.”
Responsável pela administração da máquina do Itamaraty, Brandelli afirmou que dará “atenção prioritária” a um problema que aflige o corpo diplomático: o fluxo de carreira. Ele admitiu que esse problema “aflige” seus colegas e prometeu mudanças para “preservar a capacidade de recrutar e manter os melhores quadros do Brasil”.
Hoje, o Itamaraty convive com um inchaço nos níveis hierárquicos mais baixos causado pelo grande número de concursados durante a gestão de Celso Amorim, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010).
O Globo – Diretor–geral da OMC defende discurso de Ernesto Araújo contra 'globalismo'
De acordo com o brasileiro Roberto Azêvedo, pronunciamento foi 'propício' e 'muito compatível' com o que ocorre no mundo
Jussara Soares
BRASÍLIA — O diretor–geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o embaixador brasileiro Roberto Azêvedo, elogiou o discurso de posse do chanceler Ernesto Araújo, que, ao assumir o Ministério das Relações Exteriores, prometeu "libertar a política externa brasileira". Segundo o diplomata, o discurso foi "propício" e "muito compatível" com tudo o que está acontecendo no mundo.
— Acho que (o discurso) foi muito propício, muito compatível com tudo o que está acontecendo — disse Azêvedo, após um encontro na tarde desta quinta–feira com o presidente Jair Bolsonaro e o chanceler no Palácio do Planalto.
Azevêdo defendeu o discurso do chanceler pregou contra o globalismo. Segundo ele, o conceito trata–se da "aceitação das regras, dos conceitos internacionais sem visão crítica" e precisa ser repensado.
— É aceitar como está. Eu entendo que temos que repensar isso (globalismo) — pontuou.
O embaixador afirmou que o Brasil não é o único a ver "deficiência" e "ineficiência" no sistema multilateral de comércio. Segundo ele, a própria OMC está passando por uma reformulação.
— A OMC está sendo reformada porque há uma percepção de vários países membros de que o sistema multilateral precisa se repensar, ele precisa ser arejado, precisa ser modificado, precisar reagir de maneira mais efetiva aos interesses dos países membros. O Brasil, acho, entende as coisas dessa forma também.
O embaixador defendeu que os acordos bilaterais, defendidos pelo governo Bolsonaro, são mais efetivos dos que o sistema multilateral.
— Eles deixaram muito claro que a ideia é usar os mecanismos internacionais, a própria OMC, de uma maneira que evidentemente sirva aos interesses brasileiros. Eu tenho dito que o caminho bilateral é importantíssimo e tem que ser trilhado. Ele é mais rápido, é mais efetivo sobretudo nas negociações tarifárias e de acesso a mercado — disse.
O diretor–geral da OMC evitou comentar os possíveis impactos comerciais com países árabes diante da intenção do governo Bolsonaro de mudar a Embaixada Brasileira em Israel de Tel–Aviv para Jerusalém.
— Não tratamos desses assuntos. Falamos mais em contexto geral, não tratamos de temas particulares, muito menos relações bilaterais ou coisas desse tipo. Falamos mais do fato do Brasil, uma das dez maiores economias do mundo, inevitavelmente terá interesses diversificados, diversos em vários mercados, em que essa complexidade do comércio exterior brasileiro tem que ser muito bem pensada, muito bem avaliada, mas não nos detivemos em nenhum tema.
domingo, 2 de dezembro de 2018
ESSES FALSOS DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS
ESSES FALSOS DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS
por Percival Puggina. Artigo publicado em
Nem Bolsonaro, nem seus eleitores são contra os direitos humanos. Essa é mais uma narrativa insidiosa, despegada da realidade, construída pela malícia de alguns intelectuais para consumo de certos atores do palco político. O que milhões de brasileiros manifestaram nas urnas foi sua rejeição à conduta dos que tratam de direitos humanos como se fosse coisa sua, de sua conceituação e distribuição, para uso em benefício próprio e em prejuízo de muitos ou de todos.
Refiro-me, por exemplo, ao empenho no sentido de afirmar como “direitos humanos” meras reivindicações políticas de grupos sociais que só se viabilizam contra legítimos direitos alheios, sendo o aborto a mais eloquente delas. Há muitos outros, porém. Desencarceramento em massa, desarmamento geral da população ordeira, redução das penas privativas de liberdade, indiscriminada progressão de regime prisional, descriminalização das drogas, desmilitarização das polícias militares, demasias do ECA, reivindicações LGBTTQI com incidência nas salas de aula e mais as que confrontam direitos de propriedade. As pessoas simplesmente cansaram dessa conversa fiada! Perceberam no seu cotidiano aonde isso levou o país.
Quando militantes do MST invadem uma propriedade rural – e foram 4063 invasões entre o início do governo FHC e o final do governo Dilma – os ditos defensores dos direitos humanos repudiam toda reação policial ou judicial como “criminalização dos movimentos sociais”. Algo tão ilógico, tão falso, só pode ser afirmado e publicado nos jornais porque desonestidade intelectual é um desvio moral, mas não é crime. Mas é desse tipo de desonestidade que se nutriu, durante longos anos, o discurso dos tais defensores de “direitos humanos”. A nação entendeu e, majoritariamente, passou a rejeitar.
Pelo viés oposto, basta que a atividade policial legítima, desejada pela sociedade com vistas à própria segurança, seja compelida a usar rigor com o intuito de conter uma ação criminosa, para que os mesmos falsos humanistas reapareçam “criminalizando” a conduta policial. Anos de observação desses fenômenos evidenciaram a preferência de tais grupos pelos bandidos. Enquanto estes últimos prosperam e mantém a população em permanente sobressalto, aqueles, os supostos defensores de direitos humanos, inibem a ação protetora da sociedade. Assim agindo, elevam os riscos dos que a ela se dedicam e concedem mais segurança aos fora da lei. Vítimas e policiais não têm direitos nessa engenhoca sociológica.
Não bastassem os fatos concretos, objetivos, testemunhados milhares de vezes por milhões de cidadãos comuns, as correntes políticas que se arvoram como protetoras dos mais altos valores da humanidade mantêm relações quase carnais com ditadores e regimes que fazem o diabo em Cuba, Venezuela, Nicarágua, Coreia do Norte, Irã e África Subsaariana.
As pessoas veem e sabem que o nome disso é hipocrisia.
* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.
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STF E GLOBO, VILÕES NACIONAIS
STF E GLOBO, VILÕES NACIONAIS
por Percival Puggina. Artigo publicado em 02.12.2018
Não hesito em afirmar que STF e Globo disputam o
primeiro lugar, tanto num concurso de presunção e arrogância quanto num de
antipatia, sendo igualmente rejeitados pela direita e pela esquerda.
O Grupo Globo, aqui denominado simplesmente “a Globo”, é
rejeitado pela esquerda porque esse segmento político nutre inimizade por
qualquer poder que não esteja totalmente subordinado a seus interesses.
Vem daí
a insistência do discurso petista em favor da “regulação da mídia”. O conhecido
blog esquerdista Brasil 247 em matéria do dia 8 de janeiro deste ano publicou
extenso artigo deixando bem clara, desde o título, a importância do tema: “Sem
regulação da mídia, não tem saída para a esquerda”.
Blogs de igual orientação,
aliás, atacam comumente a Globo acusando-a de golpista em virtude da divulgação
que fez dos achados da Lava Jato, da miserável ditadura venezuelana, das
relações escusas do governo petista com ditaduras de esquerda na Ibero América
e na África Subsaariana.
Como para o PT tudo que pesa contra ele é falso, os
petistas desajariam que tais matérias não fossem divulgadas ou, sendo, que o
sejam apenas aos insones das altas madrugadas. Daí o ódio ... oops – ódio não
porque os petistas não odeiam – dedicado à Globo. Para eles, escandalosa não é
a corrupção, mas a notícia sobre a corrupção.
Por outro lado, do centro para a direita do leque de abano
ideológico, espaço onde estão os conservadores, a Globo é rejeitada tanto em
virtude do combate frontal e deletério que dela recebem os valores morais
sedimentados na nossa tradição, quanto pelo seu apoio às pautas e causas da
esquerda. A essas duas tarefas, inequivocamente, se dedica imensa maioria de
seus programas, novelas e atores, jornalistas e comentaristas sistematicamente
recrutados para manifestações de apoio político ao partido da estrela e seus
cognatos ideológicos. A posição esquerdista da Globo ficou evidenciada no
editorial em que o direção do grupo de empresas se desculpou pelo apoio dado à
contrarrevolução de 1964.
Com o STF ocorre algo muito parecido. Nosso Supremo é
rejeitado pela esquerda e pela direita. Aquela o detesta pela legitimação
constitucional que deu ao processo de impeachment de Dilma Rousseff (malgrado a
“mãozinha” final proporcionada por Lewandowski) e, principalmente, pelas
“traições” de alguns ministros indicados pelo partido no julgamento de ações
penais contra petistas, desde o caso mensalão.
Há algumas semanas li, alhures,
entrevista em que José Dirceu, referindo-se a isso, afirmou que as indicações
para o STF durante os governos petistas foram extremamente rigorosas sob o
ponto de vista da afinidade ideológica. No entanto, digo eu, em juízo criminal
colegiado é muito difícil para um magistrado votar contra abundantes provas
contidas nos autos que todos leram. Daí a diferença de conduta: o PT tem ampla
base de apoio dentro do STF, aprova as pautas petistas que lá chegam e isso lhe
causa o repúdio de quem não é de esquerda, mas na hora da ação penal, onde não
há alternativa de prescrição ou nulidade viável, não havendo alternativa,
condena. Como a defesa intransigente dos próprios criminosos é uma
particularidade esquerdista, as demais condenações pluripartidárias só causam
desconforto aos sentenciados.
Logo ali adiante, porém, o STF costuma resolver boa parte
desses débitos soltando presos provisórios e condenados com uma liberalidade
que restabelece a necessária impunidade sem a qual se corre o risco de acabar
com a cadeia produtiva do crime. E aí, claro, a direita estrila.
Como se vê, STF e Globo são dois grandes vilões nacionais
pelos motivos certos e, também, pelos errados, o que não deixa de ser um feito.
* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense
de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site
www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de
Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões;
A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.
Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves
Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

[EcoDebate] O Brasil, na maior parte de sua história, sempre teve taxas médias de fecundidade muito altas (acima de 6 filhos por mulher). Mas isto começou a mudar na segunda metade da década de 1960, quando o número médio de filhos por mulher começou a diminuir.
A percentagem de mulheres que não tinham filhos era muito baixa e, geralmente, estava relacionada a problemas de infertilidade ou em função da dificuldade de encontrar um parceiro adequado. O exemplo de Brás Cubas, imortalizado na obra de Machado de Assis, é um caso raro de uma pessoa que não teve filho e assumiu sua postura de maneira irônica: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Em 2005, o Brasil atingiu o nível de reposição da fecundidade (2,1 filhos por mulher) e o censo 2010 apontou uma taxa de fecundidade total (TFT) de 1,9 filhos. Mas, evidentemente, qualquer taxa de fecundidade representa diferentes níveis de parturição.
O gráfico acima (Cavenaghi e Alves, 2013) mostra que a percentagem de mulheres, no final do período reprodutivo, tendo 3 filhos ou mais tem diminuído para todas as coortes nascidas após 1956-1960. O percentual de mulheres tendo 2 filhos subiu, para a parturição observada, ficando em torno de 33% para as coortes nascidas entre 1960 e 1970. Contudo, os valores projetados mostram que as mulheres nascidas no início da década de 1970 e com parturição de 2 filhos representava 29% do total.
Já as mulheres com um filho cresceu de 10% para mais de 17% e deve chegar a 25% do total. As mulheres que não se tornam mães (zero filho) deve passar de pouco mais de 10% para cerca de 20% do total, conforme mostra o gráfico.
De fato, o Brasil mantém não somente taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, como também cresce o número de mulheres nulíparas (zero filho). Esta é a nova realidade do século XXI.
Pesquisa recente (16 e 27 de julho de 2018) do Nube – Núcleo Brasileiro de Estágios – perguntou para 41.389 pessoas, na faixa etária de 15 a 26 anos, em todo território nacional: “você pretende ter filhos?”. Embora, 57,97% das pessoas entrevistadas afirmarem a vontade de ter descendentes, mas uma grande parcela pretende ter apenas um filho.
Confirmando o estudo de Cavenaghi e Alves (2013), a pesquisa mostrou um montante significativo de 28,3% das pessoas entrevistadas que revelaram não considerar a ideia de ter filhos. Desses, 25,47% (10.543) afirmaram: “não quero ter filhos, tenho outras prioridades” e 2,82% (1.166) constataram: “o mundo já tem gente demais”.
Ou seja, o Brasil não será uma sociedade sem filhos (childless), mas tudo indica que a proporção de pessoas que escolherão “parturição zero” ou “parturição um” deve crescer de forma consistente no século XXI. Famílias pequenas será a norma e a TFT deve continuar abaixo do nível de reposição ao longo do século XXI.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Referências:
ALVES, JED. GINK: Pessoas com inclinação verde e sem filhos, Ecodebate, 13/02/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/02/13/gink-pessoas-com-inclinacao-verde-e-sem-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. PANK: Professional Aunt No Kids (Tia profissional sem filhos) , Ecodebate, 18/02/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/02/18/pank-professional-aunt-no-kids-tia-profissional-sem-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. O mito do amor materno e as políticas pronatalistas, Ecodebate, 13/05/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/05/13/o-mito-do-amor-materno-e-as-politicas-pronatalistas-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
CAVENAGHI, Suzana; ALVES, José Eustáquio D. Childlessness in Brazil: socioeconomic and regional diversity. In: XXVII IUSSP International Population Conference, 2013, Bussan. Proceedings of XXVII IUSSP International Population Conference. IUSSP, 2013. v. 1. p. 1-25.
https://iussp.org/sites/default/files/event_call_for_papers/ChildlessNessBrazil_Final.pdf
Nicole Tavares, analista de treinamento do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios) https://www.nube.com.br/blog/2018/08/30/os-jovens-querem-ter-filhos
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2018
"Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/11/30/cresce-o-numero-de-jovens-brasileiros-que-nao-pretendem-ter-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.
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